Todos os dias quando acordo, tenho apenas a companhia do meu despertador e das malditas obras que acontecem na casa ao lado. Eu me acostumei, embora ainda acorde sobressaltado algumas vezes quando as marteladas começam. Nada que respirar fundo e contar até cem não ajude.
Pois bem. Embora minhas manhãs sejam desgostosas, passo bem as tardes. Por levantar pelas sete horas da manhã, meu dia é longo o suficiente para ser cansativo. Trabalho como detetive particular e, ainda que me encontre agora em uma situação passional, costumo agir sob os efeitos da razão. Mesmo que meu trabalho seja demasiadamente solitário, consegui bons amigos, clientes e contatos através dele. E dinheiro. Não nos esqueçamos do dinheiro.
Minhas noites são boas, não posso dizer que não. Nunca fui dos mais charmosos ou namoradores, mas não costumo ocupar minha cama com um corpo só. Tenho meus romances, alguns bons outros nem tanto, mas ainda assim, romances. O melhor de tudo, é que tenho um travesseiro que suporte o peso de minhas ideias.
Tenho meus trinta e sete anos bem vividos, sem mais arrependimentos do que um homem pode carregar, mas com suficientes para que possa refletir algumas noites sobre como tudo poderia ter sido, mas não é. E, embora eu esteja relutante em aceitar, talvez tenham sido esses poucos arrependimentos que me levaram, então, à minha atual condição.
Agora a corda amarrada ao ventilador me parece um tanto tentadora. Embora eu pareça calmo, uma coleção de boas e más memórias enche a minha cabeça com coisas das quais quero esquecer. Subo no banco e sinto um calafrio ao tocar a corda pela primeira vez depois de arruma-la ali. Estava chegando a hora.
Eu não costumava receber muitas visitas pessoais, então talvez demorassem em me encontrar. Deixo duas cartas sobre a mesa: uma para a minha secretária, contendo o pagamento do mês e um pedido de desculpas. A outra é para explicar o que me levou àquela situação. Minha vida sempre foi boa, mas é agonizante.
Eu não tenho um propósito. Para que sirvo, qual a razão de eu existir? Que diferença faço em um mundo onde quinze reais vale mais do que uma vida? Um mundo aonde a infidelidade e sagrado matrimônio caminham de mãos dadas com sorrisos embebidos em luxúria? Eu não me encaixo em nenhuma situação que me dê prazer de verdade e o trabalho, que nos últimos anos tornou-se a minha vida, agora era apenas uma etapa do desgastante dia a dia que me torturava.
Tem de ser assim. Eu estou cansado e o peso em meus ombros é grande demais para que eu o suporte sozinho. Sozinho... A palavra, agora, tem um peso que eu não consigo entender. Nem mesmo suportar. Meus olhos se fecham, minha boca entreabre, sugando demoradamente o ar. É a hora.
Ajeito a corda em meu pescoço. Chuto o banco. Ele cai. Eu caio. Em um primeiro momento, é agonia. Embora meu corpo lute pela sobrevivência, eu sinto uma estranha paz me invadir. Estava perto do fim. Tudo iria acabar em breve. O corpo vai se acalmando, apenas alguns espasmos acontecem.
Se ainda tivesse ar em meu peito, eu suspiraria. Não haverá nenhuma rosa para o enforcado. Será o fim da minha solidão.
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