Minha função é matar.
O cigarro pende desleixado nos meus lábios. Confiro o tambor do revólver na minha mão direita, apontando-o para o chão. As seis balas ocupam cada uma o seu lugar assim como a fumaça faz com os meus pulmões. Sentado na sarjeta passa da meia noite. E eu me encontro em paz. Não tem mais aquelas frescuras de quando comecei no serviço. Não existe mais o medo, nem o suor frio. Apenas uma sensação de desconforto, como quando um inseto rasteja pela sua perna...
O celular toca. Não preciso conferir: eu sei quem é e, para facilitar a minha situação, eu sei o motivo. Olho para as janelas do prédio à minha frente. Talvez eu não precise subir os cinco lances de escada e vasculhar o apartamento 53 à procura da vítima. Se ela fosse esperta, estaria fugindo agora pelas escadas de emergência. Talvez eu pudesse mentir e dizer que havia sumido com o corpo. Talvez eu pudesse... Não. As luzes se acendem. Ela não faz ideia... Eu rio silenciosamente. Pobre garota...
O vento frio da noite trás consigo o cheiro das almas corruptas desse bairro maldito. Não gosto daqui. Não que a minha alma não seja como estas de que tanto desgosto, mas... Eu prefiro acreditar que tenho um propósito diferente dos inúmeros drogados, traficantes e policiais corruptos que já joguei em uma cova.
Levanto-me da sarjeta e rumo para as escadas. Não há pressa. Eu subo com o revólver na mão direita, abaixado, pendendo em minhas mãos assim como o cigarro fazia antes de abandoná-lo no lixo. As balas já estão contadas. Não pretendo usar as seis. Apenas uma e tudo estará acabado. Misericórdia não passa pela minha cabeça. Minhas mãos não tremem. Estou todo em paz.
Finalmente termino de subir as escadas. Ando calmamente até a porta dela. Respiro fundo. 53. Posso ouvir o som dos passos lá dentro, solitários, ecoando pelo apartamento e misturando-se ao miar dos seus gatos... Pergunto-me como os pobres coitados ainda estão vivos sob os cuidados dela... Meus dedos acariciam a maçaneta com cuidado, sem fazer barulho. Não preciso forçar, a porta está aberta. Ergo a arma. Daqui para frente preciso ser cuidadoso.
Sem fazer barulho, invado a imunda privacidade dela. Como quase todos os drogados que eu apaguei, ela não se preocupa com a organização. Um bolo de roupas sujas é a cama de dois gatos. Mais adiante uma mancha que imagino ser de vômito. Rastros de uma overdose anterior no carpete da sala. Cacos do vidro da mesa de centro espalhados pelo chão.
Ouço seus passos saindo do banheiro. Tento sorrir, mas não consigo. Minha mente é puro desprezo. Meus olhos faíscam em mistura de dois sentimentos que não consigo identificar. A adrenalina não me faz mais companhia. É mecânico. Ela me vê ali, no meio de sua “sala de estar”. Provavelmente pensa que ainda está sob o efeito de qualquer que fosse a droga que tinha usado. Patética...
“Quem... É você?” ela pergunta, mas eu não respondo. Não há necessidade. “Não interessa...” respondo.
“O que você quer?” Penso em responder... Quero acabar com a sua vida miserável. Acabar com o desgosto de seus pais. Acabar com esse seu desprezo pela própria vida e pelos próprios sentidos. Eu quero terminar o serviço que as drogas começaram. As respostas são inúmeras, mas eu apenas aponto a arma para a sua cabeça.
Ainda penso que alguém acendeu a luz, mas foi apenas o disparo. O estampido seco preenche a sala e se propaga através da porta aberta enquanto ela cai de costas, sobre a própria perna, ainda sem saber o que aconteceu. O buraco na testa conta a sua história.
Apresso-me em sair dali. Não por culpa ou remorso, mas porque algum vizinho irá verificar, chamar a polícia. Sempre existe alguém. Seguro a arma ainda quente em minhas mãos.
Começo a descer as escadas apressado. Agora a adrenalina volta a me fazer companhia. Olho para o tambor do revólver mais uma vez. Ainda tenho cinco balas. Quer dizer que tenho muito trabalho pela frente... Porque eu preciso cumprir as vontades de meu mestre. Preciso purificar este mundo com as minhas mãos imundas.
Porque a minha função é matar. E não há nada que eu faça melhor.