Sala de Aula

Meu olhar cruzou com o dela pela terceira vez, dentro da sala de aula. Eu o desviei, em vão, esperando que ela não tivesse notado aquela faísca estranha em meu olhar, aquele desejo estampado em meu rosto. Mas ela já cochichava com suas amigas, que soltavam risinhos abafados do outro lado da sala. Suspirei no mesmo instante, soltando todo o ar de meu peito e deixando meus ombros caírem, desiludidos. Olhei para o caderno, que continha apenas a data e o tema da matéria. Mais nada. Ah, como eu valorizo meu professor e minhas aulas de física!

Voltei a prestar atenção na lousa. Ou tentar. Era difícil fazê-lo quando, lá do fundo, onde eu estava sentado, eu consegui vê-la em uma das primeiras carteiras, com um sorriso indecifrável em seu rosto de beleza angelical. Talvez a mais bela e doce garota que eu tenha “conhecido” em toda a minha vida. Desviei minha atenção da aula para ela e dela para aula, oscilando vez ou outra, me atentando até mesmo à forma que o seu cabelo escuro envolvia seu rosto, ou ainda como ajeitava os cabelos de minuto em minuto. Lá estava eu, patético, torcendo para que ela não me notasse e, ainda assim, para ela me notar.

Ela vestia uma camiseta vermelha, com uma estampa que eu não conseguia ver de maneira nenhuma e com algo escrito em suas costas. A calça era um jeans escuro. No pescoço, tinha um pingente em forma de gota que eu não fazia ideia de onde era. Respirei fundo e, vendo que não conseguiria mais prestar atenção na aula, ajeitei meus cabelos, comentando com um amigo meu sentado ao meu lado:

— Ei, me passa a matéria? Não to conseguindo prestar atenção. — falei, e ele apenas deu um sorriso enquanto arqueava a sobrancelha, assentindo em seguida.

— Tudo bem, pode ficar olhando ela em paz, eu te passo depois. — ele comentou, eu apenas estreitei os olhos e murmurei um palavrão enquanto o maldito sufocava um riso.

Bufei, deitando sobre os meus braços. Fiz alguns rabiscos no caderno, ora desenhos, ora pequenos textos, dizendo tudo o que eu queria que ela ouvisse. Pensei em entregar aqueles textos à minha adorada, mas parecia que... Algo me impedia de fazê-lo. Pensava em como me aproximar dela, em como, pelo menos, conseguir alguma amizade. Algo que me deixasse mais próximo dela. Suspirei e, mais uma vez, tentei prestar atenção na aula quando, em vão, me desapontei, vendo que todas as possibilidades eram falhas.

Será que, algum dia, eu iria parar de sonhar com ela? Será que eu tornaria aqueles sonhos, realidade? Não sei... Eu estava bufando muito aquele dia, mas isso não me impediu de repetir o feito e enfiar a cabeça em meio aos braços mais uma vez. Era estranho aquele sentimento louco em meu peito, pedindo para sair.

O sinal soou. Eu levantei a cabeça com ser vagareza e tive tempo de vê-la desviar o olhar de mim e o rosto enrubescer enquanto ela simplesmente fugia dali, a passos largos. Aquilo mexeu comigo de uma maneira que eu não saberia dizer. Não pude conter aquele sorriso torto em meus lábios. Eu não saberia dizer o que era aquele sentimento, mas eu queria muito descobrir.