Em um outro momento, eu não me faria estes questionamentos.
Eu queria ver minha família mais uma vez antes de tudo isso acabar. Talvez minha mãe aceitasse o meu perdão por aquela briga na cozinha. Foi tudo no calor do momento... Meu pai talvez me desse o abraço que nunca pôde. Meus filhos... Talvez eu pudesse ensinar a eles um pouco sobre a vida, suas justiças e injustiças. Minha esposa... Quem sabe eu pudesse desejar boa sorte a ela? A vida é longa demais para um último romance aos vinte e seis.
Meu coração aperta, eu sinto o sangue verter do ferimento a faca em minha barriga. É poético a chuva cair agora, em meus momentos finais, carregando o meu sangue para o bueiro mais próximo, levando consigo o meu calor, meus tormentos e minhas esperanças. Mas o que eu sinto não tem nada de poético. Eu vou morrer. Agora eu choro. Um pranto silencioso que nunca será ouvido por ninguém.
E minhas memórias, para onde vão? Eu ainda tenho tantas histórias para contar... Tantos livros para ler...
Eu finalmente vou enfrentar o fim da vida... Existe algo do outro lado? Eu nunca tive muita crença em Deus, mas, se ele existe, não peço que me perdoe pelos meus pecados. Peço àqueles que sofreram por eles — estes sim — perdão. Respiro fundo. O ar vem difícil. O coração acelera antes de desacelerar. Eu já vi isso antes em filmes. É o fim. Eu estou morrendo.
A visão turva, a boca, mesmo na chuva, seca. Os olhos vão se apagando. Um brilho mortiço toma o lugar da vivacidade de outrora. Tudo isso por quinze reais... É bom saber quanto vale uma vida hoje em dia.
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