Sorriso

Já consigo sentir o calor do dia que se aproxima. Talvez meus olhos já estivessem abertos, mas só percebo quando os primeiro raios de luz invadem o quarto e o enchem de silhuetas dos mais diversos tipos e tamanhos. As persianas deixam apenas filetes de luz alcançaram os lençóis e eu consigo sorrir.

Meu braço sobre o seu corpo me faz ter uma sensação gostosa que me lembra de que você é real e não apenas fruto de minha fértil imaginação. Mais uma vez sorrio. Aliás, é impossível não fazê-lo perto de você. Minha mão direita desliza suavemente sobre a sua pele bronzeada e me pego sorrindo mais uma vez. Vê como é inevitável?

Sua respiração faz as roupas subirem e descerem e, por um instante, deixo a mão pousar em sua barriga. Você se mexe, se ajeitando na cama. Faço círculos com as pontas dos dedos, brinco com a pele arrepiada. Aconchego-me contra você. Beijo sua nuca com carinho, passos dedos pelos seus cabelos, um cafuné que imagino ser gostoso. Você se mexe de novo.

Eu me levanto da cama com cuidado. Não quero te tirar de qualquer sonho que esteja tendo. Se não fosse bom, já estaria em pé, privando-me da delícia que era o meu ritual de despertar. Nunca fui tão feliz em minhas carícias como sou com você e, o porquê, eu não se dizer.

Vestindo só uma bermuda, saio do quarto e vou até a cozinha preparar o nosso café da manhã. Um pão na chapa para mim, uma salada de frutas para você. Nunca questiono as suas escolhas, ou o fato de você querer emagrecer mesmo sendo linda como é. Do mesmo jeito, você não me questiona por algumas vezes fazer horas extras ou por deixar a barba por fazer de vez em quando. Para mim, você é perfeita.

Passa algum tempo quando, de terminando de fazer o meu pão, você aparece por trás de mim e me abraça. “Bom dia”, fala com a voz arrastada e eu não posso deixar de sorrir. Viro-me para você e dou-lhe um beijo na testa e, em seguida, selo nossos lábios. Pergunto se dormiu bem e você diz que sim enquanto pega a salada de frutas que terminei de fazer. Dá mais um beijo no meu rosto e se senta à mesa da cozinha, atrás de mim.

O nosso apartamento é pequeno, eu sei. Um “apertamento” como você gosta de falar. Um dia nós teremos uma casa bem grande, um filho ou filha para começar... Até lá espero poder casar com você, pagar uma aliança que possa representar o tamanho do meu amor. Eu sei que você acha que é bobagem, mas eu não teria coragem de te dar qualquer porcaria.

Você me pergunta como foi o meu sono. Eu digo que, como qualquer coisa ao seu lado, foi ótimo. Você me chama de bobo. Como assim “bobo”? Não é mentira, eu sei, mas não deixa de ser verdade o que eu disse. Qualquer coisa ao seu lado é, para mim, a melhor coisa do mundo. Eu espero que você não ache que eu estou te bajulando, o que não é verdade.

Eu me sento de frente para você, menos comendo e mais te observando. Os detalhes de sua pele. A cor dos seus olhos, o seu jeito de falar, de comer e de tomar aquela vitamina que me dá asco. É engraçado que mesmo com nossas diferenças, consigamos nos acertar. Talvez sejamos aquilo que chamam de almas-gêmeas. Piegas, eu sei, mas não posso deixar de pensar nisso. Eu rio e você me pergunta o motivo. Respondo que estou pensando sobre o quão somos almas-gêmeas. “Mas que piegas”, você diz.

Eu sorrio. “Eu sei... Eu sei”.

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