Vermillion

Este é o primeiro conto a ser postado aqui, no Escritos Notívagos. O primeiro de muitos, espero. Um jovem russo do século XIX, uma jovem francesa cujo olhar misterioso é indecifrável. Vermillion conta a história de um jovem chamado Alexei, cuja "vida", divida em três partes simples, é marcada pela cor vermelha e pela presença de uma certa mulher. Sobre vinho, sangue e fogo... Boa leitura!

Introdução

Eu não tenho muitas memórias de minha infância. Fazer esta constatação, agora, de frente para uma fogueira, me faz ficar um pouco preocupado com o que me tornei nestes últimos anos de minha vida. Tenho certeza que meus olhos refletem o calor das brasas, embora este calor realmente não seja meu. Assim como o meu corpo, que reflete meramente o que já fui, mas não mais o que sou realmente... É, ao mesmo tempo, triste e fascinante.

Eu, Alexei Vladiavitch Chankov, me lembro de minha infância apenas como um espectro de uma existência passada, algo próximo de um sonho que se teve há muitas semanas e do qual pouco posso recordar. Lembro-me da Rússia czarista, de meus pais e de minha irmã. Éramos uma família como qualquer outra, labutando nas terras do czar para o desenvolvimento da Mãe Rússia. Tudo isso até por volta de meus dezesseis anos, quando, assim que conseguiram, meus pais me mandaram para fora do país.

A partir daí, minha vida mudou muito. Meu tio, Alexander, morava na Inglaterra e fui para lá. Tomei gosto pela leitura e, inclusive, me deixei macular pelas ideias imergentes do iluminismo. Fiz muitas viagens em torno da Europa, mas uma delas em particular mudou a minha história e a de muitos que me cercavam. Diferentemente de minha infância, eu ainda me lembro como se fosse ontem...

O Vinho

Eu nunca fui um grande apreciador de bebidas alcoólicas e talvez seja pelo fato de não ter tido tempo de tomar o gosto pela coisa. “Nada melhor que um mau hábito para criar outro mau hábito” era o que dizia meu tio. Hoje em dia, com muita experiência sobre péssimos hábitos, posso dizer que é a mais pura verdade.

Era uma manhã de novembro excepcionalmente fria do ano de 1846. Não que as demais não fossem, mas aquela começava com rastros do que parecia ser neve, caindo lentamente do céu. A viagem para Paris foi melhor do que o esperado. Meu tio, já com algum dinheiro, conseguiu me levar para fazer um tour pela Europa. Eu, como qualquer jovem de vinte anos exatos que ia pela primeira vez para a cidade, estava completamente deslumbrado com a sua beleza.

Talvez fosse o fato de já ter lido de diversos autores franceses ou ainda de poder confirmar com meus próprios olhos os relatos escritos, mas isso não importava completamente. Eu estava em Paris, acompanhado de meu tio, e, embora a nossa estalagem tivesse um baixíssimo custo, os dormitórios não eram de todo mal. Mais um motivo para ficar feliz, afinal de contas.

A nossa parada em Paris seria suficientemente longa para inspirar-me a voltar de novo. Pelo menos assim disse meu tio quando deixamos nossas malas dentro da estalagem e saímos para dar uma volta. Eu, que começava a me acostumar com a “temperatura amena” da Inglaterra — entenda que eu vivia na Rússia, comecei a sentir o frio congelar meu rosto assim que coloquei os pés para fora do lugar.

— Vamos procurar um café. — sugeriu meu tio e eu concordei imediatamente.

Assim que encontramos um lugar para passar o tempo, Alexander desatou em falar dos motivos que nos guiaram até Paris. Ele tinha um negócio a resolver e, para ele, era vital que eu estivesse junto, acompanhando-o em mais aquela empreitada. Como todo rapaz de minha idade, me achei importante o suficiente para estufar o peito e deixar um sorriso esboçado em meu rosto. Uma pontada de surpresa, admito, veio junto com o ar gelado.

— Você irá conhecer uma pessoa... Interessante. — disse ele medindo as palavras. Eu apenas concordava com os olhos vidrados nos dele, fazendo força para não olhar ao redor e perder-me contemplando a beleza do lugar.

— Que tipo de pessoa, tio?

Ele fez uma pausa, como se buscasse algo em sua memória. Bebericou sua bebida e só então falou.

— Uma mulher... — respondeu simplesmente. — Uma linda e formosa mulher.

— Posso saber seu nome?

— Julie. Senhorita Julie Bonnet Dumont.


Eu mal consegui me conter. O que o meu tio queria entre mim e ela? Por que precisava de mim? As perguntas iam e vinham em minha jovem mente e eu apenas me deixava afundar em meio a esses questionamentos. Não pude deixar de imaginar como seria a senhorita Dumont.

O nome, porém, intimidava. Quando meu tio o citou, ainda que em voz relativamente baixa, pude ver diversas cabeças se voltarem em nossa direção. Alguns olhos expressavam interesse e curiosidade, enquanto outros exibiam apenas um medo incontido. Talvez fosse minha impressão, mas pude ver um casal que estava sentado ao nosso lado sair do café com o passo apertado e olhando para trás.

— E quem seria Julie Bonnet Dumont?

Quando perguntei ao meu tio, já na estalagem, ele não me respondeu, apenas continuou assinando os documentos que carregava em uma pasta. Aquela pasta, talvez, fosse o seu modo de escapar das perguntas que não queria responder. Meu tio era um homem excêntrico, certamente, mas não o culpo pelo seu jeito de ser. Ele havia sido criado assim e, embora eu não me recorde muito bem, minha mãe também tinha esse mesmo jeito silencioso.

A pergunta não respondi me deixou em frenesi. Eu fiquei curioso por toda uma semana até ele voltar a falar da mulher cujo nome eu já decorara e ensaiara a pronúncia diversas vezes diante de um espelho. Julie Bonnet, como ele disse que preferia ser chamada, faria deles convidados na noite seguinte para um jantar de boas vindas. Embora eu tenha me perguntado diversas vezes o significado de tudo aquilo, não havia conseguido chegar a uma resposta plausível.

Mesmo assim estava excitadíssimo para a noite seguinte. O mistério em torno daquela mulher, mesmo antes de conhecê-la, era incrível. Que tipo de mulher era? Como se parecia? Linda, como disse o seu tio, podem ser muitos e variar de gosto a gosto. Por várias vezes eu suspirei, sorvendo o ar frio da noite de Paris, que invadia as finas janelas e nos fazia buscar calor dentro de nossos cobertores e em nossos próprios braços. A noite seguinte não seria apenas uma noite. Seria a minha noite em Paris.


Aguardávamos diante do casarão que pertencia à família Dumont. Apenas os portais, todos cheios de todo tipo de detalhes, desde figuras mitológicas até nomes de familiares mais antigos, eram intimidadores. As figuras em metal luziam suavemente sob a luz das lanternas que estavam penduradas, uma de cada lado da porta principal. Pelo som que fez quando batemos, a porta era tão grossa quanto parecia. A ansiedade estava me matando. O tempo continuava tão frio quanto poderia ser, o que apenas serviu para me atiçar os nervos e realçar a ansiedade.

— Fique quieto, moleque! — falou meu tio entredentes e eu pude ver o sangue lhe subir para o rosto.

Tentei manter-me parado e, com toda a força de vontade que tinha, senti o vento congelante perpassar meu corpo imóvel. A porta fez um barulho monumental ao ser aberta, mas, manipulada por um senhor, cuja idade eu estimaria sessenta e tantos anos, parecia ser feita de papel.

— Boa noite, senhores.

— Boa noite, viemos ver a mademoiselle Bonnet. — falou meu tio com alguns floreios em um sotaque francês claramente forçado.

O homem olhou o meu tio por um tempo e desviou, em seguida, o olhar para mim. Senti os olhos dele me analisando como um joalheiro que observa minuciosamente os detalhes de uma pedra preciosa. Tentei me manter calmo e em silêncio e, quando achei que iria logo encará-lo de volta e perguntar o que fazia, ele se pronunciou com a voz calma.

— Podem entrar. Minha senhora os está esperando.

A cada cômodo que passamos antes de chegar à sala de estar eu deixava minha boca se abrir alguns centímetros além dos limites naturais. Era tudo impecável, cheio de pequenos ornamentos em cada parede, mesa e coluna. Era algo próximo de um paraíso sob a forma de casa. Eu era jovem e, para mim, morar em um lugar daqueles deveria ser o mais próximo do paraíso que já havia sentido.

Havia escadas em caracol que subiam para lugares dos quais minhas imaginação não conseguia se aproximar, espelhos por todos os lados, estatuetas de anjos e outras criaturas, mitológicas ou não, sobre mesinhas que adornavam o amplo corredor. Como se estivéssemos sendo guiados à sala do trono de algum rei, nenhuma palavra foi dita até que o mordomo nos abandonou diante de uma porta aberta. A sala de estar.

Senti um arrepio. Que tipo de mulher seria Julie Bonnet? Não era como se tivesse conhecido muitas em meus curtos e desajeitados vinte anos de idade, mas, pelo modo que meu tio falava, parecia ser uma das esnobes francesas que via passar pelas ruas, balançando os quadris para lá e para cá, hipnotizantes.

Este foi uma das poucas vezes em que me surpreendi. Grande parte delas, inclusive, se deu devido a esse acontecimento. Eu a encontrei. E lá estava ela, a mademoiselle Julie Bonnet Dumont, sentada com as pernas cruzadas sobre um dos sofás que rodeavam uma mesa de vidro aonde repousava um vaso de flores que deveria valer muito mais do que a minha existência.

Eu nunca em minha vida havia visto algo tão belo. Ela deveria ter pouco mais que minha idade pela aparência, eu arriscaria dizer que fossem uns vinte e dois ou vinte e três anos. Seus olhos, porém, contradiziam sua jovialidade. Eram olhos de quem teve mais experiências marcantes do que os dedos podem contar. Olhos que me repreenderam por encará-los tempo demais.

Ela deixou que um sorriso pairasse em seu rosto por alguns instantes. Encarou ao meu tio com um cumprimento, ao que ele tomou sua mão entre as dele para depositar um beijo em sua contra palma. Ameacei fazer o mesmo, mas ela simplesmente me deu um sorriso que me arrepiou a espinha.

— É ele? — ela perguntou com o sotaque francês acentuado adornando a voz melodiosa de uma mezzo-soprano. — Não se parece a mesma pessoa que descreveu com tanto entusiasmo.

Era proposital, eu tinha certeza. Ela não o faria senão para me constranger. Tentei espantar o rubor do rosto acalmando a minha respiração. Ela pediu que nos sentássemos e nós o fizemos. Meu tio e a mademoiselle Julie trocaram algumas palavras em francês e me senti excluído da conversa. Pela segunda vez na noite, eu sabia ser proposital.

Eu me perguntei, então sobre o jantar. Não pense que eu sou um morto de fome, mas nunca havia visto um jantar em uma sala de estar. Era para ser um jantar, não era? As respostas, assim como no dia anterior, fugiam de minha mente como os olhos dela fugiam dos meus ao se encontrarem por acaso.

O mordomo apareceu mais uma vez, acompanhado de três taças e uma garrafa de vinho. Meu tio, desde que havia chegado, deixara escapar algumas vezes uma coisa ou outra sobre sua qualidade, então resolvi experimentar. Bebi um ou dois goles, sem saber degustar com a mesma elegância que os dois faziam ao meu lado.

— Alexei, não é? — ela perguntou e, rapidamente, fiz que sim em silêncio.

Ela olhou para o meu tio desconfiada e voltou a olhar para mim, seus olhos escuros e penetrantes rasgando a minha carne se infiltrando dentro do meu ser. Agora eles não fugiam.

— Conte para mim, você acredita em alguma mitologia? Tem uma... Religião?

Eu fiquei em dúvida. O que deveria fazer? Meus olhos recaíram sobre o meu tio, que agora encarava fixamente um ponto qualquer da sala de estar, como se estivesse alheio àquela conversa. Eu respirei fundo e, sentindo a resposta crescer em minha mente, respondi com sinceridade.

— Não há nenhuma religião que eu conheça cujos valores eu siga integralmente.

— Veja só, o garoto russo tem vocabulário.

Encarei meu tio com estranheza. Ele mantinha o olhar fixo, sem esboçar qualquer reação ou fazer qualquer outra coisa além das necessidades naturais do seu corpo. Senti-me desconfortável e Julie olhou para mim como se seus olhos pudessem penetrar ainda mais fundo em minha mente. E, embora eu não soubesse até então, eles podiam.

— Então, Alexei — sussurrou o nome, rindo baixinho em seguida — Se não tem nenhuma religião, o que te faz especial?

Eu estaquei. Inclusive a minha respiração havia parado. O que ela pretendia com aquilo. Fiz menção de me levantar, mas a presença da jovem mulher era intoxicante. Eu me sentia tão livre quanto pássaro em uma grande e enfeitada gaiola. Mas, ainda assim, uma gaiola. O que ela era?

— Eu... Eu não...

— Você quer ser especial?

Pela segunda vez, minha expressão foi de total surpresa. Meu tio parecia ter parado no tempo. Ela tomou a taça de vinho que estava em sua mão e, em seguida, tomou lascivamente, exibindo um sorriso que, ao mesmo tempo, mesclava o delicado e o animalesco. Eu já tinha a minha resposta.

— Sim...


Ela me empurrou sobre a cama e eu, ainda paralisado, não sabia exatamente o que fazer. Meu tio havia sido guiado pelo mordomo para algum cômodo do casarão. Eu, sem saber o que fazer ou como fazer, estava junto de uma belíssima mulher que, agora, começava a se despir diante de mim.

De seu vestido, vi algumas camadas irem ao chão. Não sabia exatamente quantas, pois a minha quinta taça de vinho, da noite e da vida, nublava as minhas vistas. E não pense que era um vinho ralo, mais água do qualquer coisa. Era um vinho de verdade. Lentamente, e de um jeito um tanto desajeitado, eu fui soltando os botões de minhas roupas. O quarto estava frio, mas quem se importava? Eu certamente não... Deixei meu tórax nu e, por puro instinto, ajudei a mademoiselle Julie a se despir.

— Está com pressa? — ela me perguntou com um sorriso no canto dos lábios.

Eu nada respondi, apenas desfazia os botões de suas casas e via, centímetro a centímetro, a pele pálida de minha anfitriã chegar aos meus olhos do mesmo modo que a lua ao povoar a noite escura.

Ela também havia se desfeito de seu vestido e as roupas que tínhamos eram as que protegiam os nossos sexos. Ela, mais uma vez, me empurrou sobre a cama. Dessa vez, porém, eu não ousei me levantar.

Não me importava mais com o jantar que não fora servido. Pensei que gostaria de ter mais boas-vindas como essas durante os anos que se passariam.

Eu assistia aos seus movimentos enquanto ela ia e vinha sobre mim. Os sons estavam perdidos entre os nossos fracos gemidos e o da cama. Ela virou-se e entendi que era a minha vez. Investi contra ela com a vista nublada pelo vinho e a consciência ofuscada pelo sexo. Ela me abraçou, espremendo os seios contra o meu peito. Em seguida, ela me beijou o pescoço.

E então veio a mordida. Dor, medo, prazer e a doce vontade de repetir, nessa ordem. Ela me guiou em seus movimentos e eu senti uma estranha fraqueza se apoderar de minhas pernas. Pela segunda vez, ela ficou sobre mim, largando o meu pescoço. Seus lábios estavam certamente mais vermelhos. Eu já estava praticamente sem forças.

— Eu tomei de você. — ela disse rapidamente, medindo as palavras antes de falar. — Agora você toma de mim.

Com as mesmas presas, que agora eu podia ver, ela mordeu o seu próprio pulso e estendeu-o de frente para mim. Instintivamente, comecei a sorver. Bebi muito mais que as cinco taças de vinho que havia tomado.

Assim que larguei seu pulso, a dor foi agonizante. Ela me olhou nos olhos com um sorriso estranho. Algo entre a admiração e a luxúria que tinha há poucos minutos.

— O que... Você fez? — perguntei, engasgando nas próprias palavras.

Antes de perder a consciência, pude ouvir, a poucos centímetros de minha orelha, a voz melodiosa de Julie Bonnet Dumont.

— Eu fiz você.


O Sangue

Depois daquele dia, foi cada vez mais difícil resistir às tentações que me apareciam a cada noite passada em claro. Em primeiro lugar, ter de escolher a noite em comparação ao dia foi inevitável e inacreditavelmente doloroso. A cada nova noite de minha antivida, eu experimentava toda e qualquer sensação como uma sombra do que deveria ser. Eu sentia menos as emoções, mas os meus sentidos, por outro lado, estavam mais aguçados do que nunca. E diferentemente do que pude imaginar Julie não me abandonou quando me fez um dos dela. Um vampiro solto é uma ameaça para todos, inclusive para o próprio vampiro.

Nossa existência, como eu aprendi ao lado dela, nada mais é do que a inexistência humana. Dependemos da morte para vivermos e o caos nos traz paz. Vivemos de uma antítese que não podemos quebrar, tampouco vivemos, para falar a verdade. O nome, como já usei, seria uma antivida, algo completamente oposto da vida humana. Algo mais custoso e, certamente, mais intrigante.

Não bastava ser apenas difícil, tínhamos de seguir regras bem definidas. Julie me disse que nunca foi importunada por nenhum outro vampiro, mas havia uma sociedade. Algo entre a luz e as sombras da noite. Algo que nos mantinha em ordem e aparava as pontas que se soltassem. Definitivamente não desejaríamos ser pontas soltas. Os anos se passaram e nossa aparência mudava em pequenos detalhes, como se em anos se passasse um dia apenas. Certamente isso nos forçou a algumas mudanças. Dentre elas, mudamos de país.

Nós saímos da França quando vieram as Grandes Guerras. Refugiamo-nos, primeiro, na Inglaterra, país que eu conhecia de quando era garoto. Meu tio não iria nos incomodar: ele havia sido meu primeiro alimento. Por ironia, eu não precisei perguntar para Julie o porquê. Ela me contou tudo, detalhe por detalhe, sobre o que havia feito para “me conseguir para ela”, em suas palavras e com direito ao sotaque francês. A princípio eu me senti furioso, mas passei a aceitar com o tempo. A minha vida seria longa demais e eu não queria gastar meu tempo cultivando o ódio pela minha criadora. Ódio, aliás, talvez fosse a única coisa que não cultivava por ela.

Ela me ensinou tudo a respeito da “inexistência”. Ensinou-me a sentir, respirar, caminhar e fazer o meu coração bater. Ensinou-me a beber coisas mais fortes que o vinho... Ensinou-me o sangue. Os seus usos, as suas fontes e os seus controles. Eu me senti Deus. Agradeci por tudo que havia feito, mas algo além da potência de seu sangue, que ainda corre em minhas veias, me fez ficar. E não era a sensação de débito.

Eu, por mais que isso me impressionasse, apaixonei-me por ela. Não foi apenas o sexo ou o fato de ter me transformado: eu realmente me apaixonei pela minha criadora.

Nós não éramos como os outros casais. Talvez pudéssemos ser comparados aos bandidos que viviam de aplicar golpes, exceto pelo fato de os golpes humanos poderem dar errado. Não vejo outro nome para o que fazíamos além do "jargão técnico" da coisa: caçada. Nós saíamos, sempre que a fome batia, para nos abastecermos de sangue para as próximas semanas. Tínhamos a influência de nossa presença e a potência de nosso sangue. Não era difícil nos alimentarmos regularmente e sem chamarmos atenção. Pelo menos não enquanto podíamos culpar os inimigos de guerra. E, quando a guerra acabou, nós nos mudamos para a América.

Os Estados Unidos da América, quando fiz cem anos, eu descobri ser um lugar intrigante. Assim como todo lugar, era uma coleção de pessoas mascaradas cuja devassidão de suas mentes supera em séculos as perturbações que nós, vampiros, temos. Mulheres e maridos que viviam com base em suas traições, não nos casamentos. A desumanidade dos homens que diziam defender os humanos e seus direitos, a corrupção da justiça, entre tantas outras situações que me fizeram sentir asco da humanidade. Mas o que me impressionou foi o fato de me sentir acolhido em suas noites moderadamente frias e em seus dias suficientemente quentes.

Quando fui transformado era 1846. Cem anos depois, após o término da Segunda Guerra Mundial, lá estava eu, na América, acompanhado de minha mentora e amante, Julie, que simplesmente me seguiu, deixando para trás sua riqueza, influência e amigos. Eu podia ver em seus olhos que ela também estava apaixonada e isso, para mim, era gratificante. Eu me sentia como uma criança nos braços calorosos de uma mãe... Não, risquemos essa imagem. Não sou Édipo, definitivamente. Talvez seja melhor dizer que ela era o meu amor e alvo de toda a minha devoção. Eu daria minha antivida por ela sem pensar duas vezes. E isso, acredite, vale muito quando você é um vampiro jovem e sedento por aventuras.

Eu sorrio, agora, com esse pensamento. É estranho isso me lembrar daquela época... É estranho. Simplesmente estranho.


O ano era 1989. Muita coisa havia mudado. Haviam aprimorado, através das guerras, o avião. Vivíamos a tão silenciosa e, ao mesmo, declarada Guerra Fria. Eu, por algum tempo, senti o mais próximo do que se pode nomear saudade da Rússia. Sentia-me como um traidor, inclusive, por estar justamente no país rival de minha Rússia durante a Guerra Fria. Mas o mundo evoluía e, como a natureza pede, nós nos adaptamos.

Enquanto antes escolhíamos os nossos alvos ao acaso, agora íamos atrás dos "rebeldes sem causa". Acredite, era fácil sumir com uma pessoa que ninguém procura, ou cuja casa dos pais só visita de vez em nunca.

Nós estávamos, naquela ocasião, em um dos Rock Bars de Nova Iorque. Eu simplesmente me sentia o máximo. Julie, apoiada no bar, seduzia o barman com sua lábia. Aliás, a lábia, de tudo o que ela tinha, deveria ser o menor dos atrativos. Julie, desde o dia em que a conhecia, tinha curvas acentuadas, mas nada exagerado. Seus cabelos e olhos escuros tinham um quê de sedução que apenas quem já os encarou poderia saber, então não vou perder tempo descrevendo-os demais.

Eu, por outro lado, estava na pista, mantendo o corpo agitado e quente enquanto meus olhos se fixavam em qualquer figura que pudesse se mover e revelar-se uma presa em potencial. Eu sorrio para uma morena que passa por mim com um sorriso malicioso. Ao som de Poison, as pessoas vão dançando pelo bar enquanto outras simplesmente se apoiavam no balcão e pediam mais um drink. Eu me aproximei da morena que passou por mim. A partir daquele momento ela era a minha presa. E, depois que eu escolho minha presa, seu destino já é certo.


Horas mais tarde, eu e Julie saíamos do quarto, os rostos e corpos manchados com o sangue de nossas vítimas. A morena estava ali, deitada sobre o barman. Dois corpos drenados com mordidas por qualquer lugar que houvesse passagem sanguínea em abundância. Poderiam ser futuros pais ou mães de família, ter alguém que dependesse deles. Não importava para nós. Queríamos a nossa satisfação, nem que para isso tivéssemos de sacrificar o dos demais. Embora seja uma atrocidade, eu admito, ainda hoje faz todo o sentido para mim. Aliás, nós driblamos a morte. Para existirmos, temos de presenteá-la com algo mais interessante do que a nossa carne fria.

— Temos de sumir com estes corpos antes do amanhecer. — eu falei, acabando com a distância entre nós e a prensando contra a parede.

Ela arfou, por um instante e eu sorri, ainda sentindo o gosto do sangue impregnado na garganta. Passei a mão pelos cabelos dela, o que a fez fazer uma careta manhosa. Eu ri.

— Temos mesmo? — ela perguntou, deslizando a mão por debaixo de minha camiseta.

Eu a beijei nos lábios e a tomei em meus braços com facilidade, prensando-a com ainda mais força contra a parede. Ela sorria um sorriso tão malicioso quanto o meu. Beijei-a na curva do pescoço. Ela riu. Éramos dois bobos apaixonados. Mantive meus olhos claros focados nos olhos de imensa escuridão dela. Mergulhei naquele mar negro e, com um sorriso, beijei-lhe a boca. Dois bobos, centenários e apaixonados.


Mais tarde, enquanto eu jogava os corpos em algum rio, ela deveria estar preparando os nossos lugares de repouso. Eu me acostumei à condição de vampiro. Qualquer um, aliás, cuja moral fosse mais maleável que uma barra de alumínio, se acostumaria com facilidade. Embora tenha me levado tempo para aceitar que matei um de meus familiares, eu aceitei. Embora tenha me custado a humanidade aceitar que teria de matar para sobreviver, eu matei. E antes de fazê-lo em meu nome, fiz em nome dela. Porque eu a amava mais do que qualquer um poderia amar alguém. Eu amava Julie Bonnet Dumont.


O Fogo

Hoje cá estou eu, no século XXI, deleitando a presença de uma fogueira a minha frente. O calor me aquece o rosto e a sensação é melhor do que eu conseguia me lembrar... Não, não estou destruindo as provas de minha alimentação: os crocodilos existem para isso. Eu não me alimento há semanas, inclusive. Estou fraco, com a força equivalente a um jovem magrelo de treze anos de idade. Tenho minhas dúvidas, ainda, quanto à decisão que tomei. Aliás, tenho dúvidas com relação a todas as minhas decisões. Desde que ela se foi, eu não consigo mais ter certeza de nada.

A minha Julie estava morta.

Os caçadores invadiram o nosso refúgio enquanto eu estava fora, procurando um novo lugar para ficar. Morar nos Estados Unidos tornou-se visado para a nossa raça quando o mito do vampiro se popularizou. Os anos noventa, em sua maioria, foram os anos dourados da caça ao vampiro. E Julie foi capturada, torturada e morta.


Eu posso aceitar que nada é para sempre, mas quando você é um vampiro, o seu julgamento quanto à duração de sua vida é idêntico ao de uma criança de quatro anos de idade. Antes de experimentar a verdadeira morte, tudo é infinito e nós somos imortais... E não é bem assim. A prata nos condena, o sol nos enfraquece e o fogo, como se espera, nos elimina completamente. Nessa ordem, a minha Julie sofreu a morte verdadeira.

Eu tentei suprir a minha solidão fazendo novos vampiros, mas todos os três que criei foram igualmente caçados e mortos. Meus jovens filhos foram destruídos pelos malditos caçadores de vampiros. Julie, o amor de minha vida, e meus filhos! Como as coisas poderiam ser assim?

O fogo tornou-se a minha última paixão. Meus olhos, eu tenho certeza, refletem o bruxulear da chama, mas é a minha idade que está impressa em seu interior, não o brilho cristalino do fogo. Meus quase duzentos anos de antivida me pesam nos ombros e nas memórias. Cada alvorecer é acompanhado de pesadelos que revivem o dia de sua caçada. O dia em que destruíram Julie.

Eu perco a noção do tempo em cada um destes pesadelos, revendo os detalhes que ficaram gravados em minha alma corrompida pela luxúria e amainada pelo amor. Uma existência maldita sempre seria uma existência maldita e, talvez, apenas eu não entendesse isso. Algo como a chacina de centenas e centenas de humanos para a manutenção de duas paródias de vida deveria ser recompensado como algo de igual valor. O universo tende ao equilíbrio. E o equilíbrio veio com o sol.

Minha Julie... Minha tão amada Julie... Espero que um dia você entenda o quanto eu te amei e o quão difícil foi deixar você partir. Tudo poderia ser diferente se eu não tivesse insistido para você ficar no refúgio para se manter segura. A maldição das escolhas. A maldição da antivida. Não se pode viver para sempre, mas nós poderíamos tentar, não é?

Não... Eu sempre estive enganado, exceto por uma coisa: o meu amor pela sua doce presença, Julie. O meu amor pela nossa existência maldita. Eu sempre fiz tudo em nome desse amor e, agora, solitário, acompanhado apenas de uma saudade e dor insuportável, eu sinto que chegou a minha hora também. Mas não através dos caçadores. Não mesmo.

As chamas envolvem o meu corpo quando me lanço contra ele. Nu do peito para cima, eu sinto a agonia das chamas que me queimam a pele e lançam um cheiro de podridão e carne queimada para o alto. A dor não me desespera tanto quanto eu imaginei que faria. Minha carne pútrida, que envolve o que restou de minha alma, começa a se abrir, libertando aquela paródia em distorção do que um dia foi algo puro.

Paz. Essa é a sensação que me envolve. É a sensação de liberdade e despreocupação. Uma sensação de fim do medo e do luto. O fim da escuridão e de todas as minhas mágoas. Eu estou desvanecendo. Se houver um outro lado, que Julie me encontre por lá. Quem sabe ainda haja alguma chance de termos a nossa eternidade?

Eu pouco me recordo de minha infância. Talvez porque eu tenha algo melhor para recordar...

— Julie... Seja a minha guia por esta trilha de dor e sofrimento!

— Eu serei, Al... Eu serei.