Hoje eu saberia o que era aquilo que eu estava sentindo. Talvez, naquela época, eu já tivesse especulado a respeito do que seria, mas creio que nunca consegui chegar a uma conclusão definitiva antes dos dezessete anos. É óbvio que o que sentia, na verdade, era uma paixão desmedida influenciada pela beleza dela e pelo meu excesso de hormônios.
Dos anos de minha juventude, as melhores coisas que trago de recordação são as memórias de nossos momentos juntos. A bem da verdade, ela não deveria ser tão bela quanto eu enxergava. Meus olhos apaixonados certamente deveriam lhe ofuscar os defeitos. E eu, o bobo adolescente apaixonado, via nela a representação da mulher ideal. Ou garota, se assim preferir.
Eu me lembro bem, ainda guardo na memória os momentos que desfrutei a observá-la. Passava caminhando pelos corredores colégio, conversava com as amigas para lá e para cá. Talvez os anos me impeçam de concluir este relato como deveria, mas tal qual o jovem que um dia fui, devo expressar-lhes os sentimentos... Os doces sentimentos que tive pelo pouco tempo que estive ao seu lado.
Estar com ela era como estar na presença de um anjo que irradiava alegria, carinho e conforto. Ela não era uma garota comum, mas o que todos chamam de “para casar”. Seus olhos acastanhados tinham um brilho capaz de iluminar as estradas mais escuras, enquanto seus cabelos escuros como a noite, somados à pele clara, faziam-na parecer ser de porcelana, o que definitivamente não era.
Para ser angelical, lhe faltava apenas o par de asas. E, digamos assim, ela os teve na festa a fantasia em que pela primeira vez a beijei. Era um outubro como outro qualquer. Fim de mês, Haloween. O dia perfeito para uma festa a fantasia.
Eu, como me pediram várias vezes na semana que passou, fui de vampiro, o clichê-mor das festas a fantasia. Porém, confesso, não fiquei de todo mal. Meus cabelos, quando os tinha em abundância, eram escuros e longos o suficiente para penteá-los como bem entendia, de modo que abusei do ar aristocrático, enquanto meu rosto, já pálido por natureza, ganhou manchas avermelhadas que deveria ser sangue. Eu não era feio, embora também não fosse dos mais bonitos. A fantasia, admito, deve ter chamado mais atenção do que eu mesmo.
Eu estava entre os meus colegas quando ela chegou. Literalmente, o anjo chegou à festa. Anjo que, para mim, seria o sinônimo mais exato para a palavra tentação. Usava roupas curtas o suficiente para me fazer curvar o pescoço ao vê-la passar e, seus cabelos negros em meio ao branco excessivo, davam um contraste que, por Deus, tornava-a a rainha da festa.
Nós acabamos topando um com o outro quando buscávamos bebidas para os colegas. Por coincidência, assim digamos, nos conhecemos verdadeiramente, embora apenas ela não me conhecesse. Conversamos, bebemos e acabamos ficando um com outro pela festa mesmo. Nossos amigos nem sequer chegaram a ver as suas bebidas.
O fim da festa, para mim, foi trágico. Eu, como todo garoto sem dinheiro, havia ido de carona para lá e, como eu percebi, a minha carona já havia abandonado a festa há muito tempo. Ela que morava a poucos quarteirões dali, seguiu a pé. Eu, rumando na direção oposta da minha casa, a acompanhei. Confesso que, embora muitos detalhes tenham faltado, cometi mais um dos clichês de filmes românticos: beijei-a na porta de sua casa.
Entenda que eu sempre odiei clichês, mas, por estar ao lado dela, eu me deixava cometer esse tipo de deslize. Porque eu a achava perfeita.
´Minutos mais tarde, pela madrugada, fui assaltado, mas isso não me fez muito estrago. Quem se importava com os cinco reais que havia na carteira? Os documentos? Sempre havia segunda via. Agora, passar uma noite com a Melissa? Nunca conseguiria repor.
Os dias se passaram e, embora eu achasse que ela iria me esquecer, ela voltou a falar comigo imediatamente. Marcou de sairmos algum dia e eu, mais uma vez, caí nos clichês. Convidei-a para o cinema. Um filme qualquer, água com açúcar, mas ela não quis. Chamou para um filme de terror, alguma coisa mais pesada do que um casalzinho em que a garota tem algum problema ou o garoto tem câncer.
Eu pensei que ela fosse do tipo que faria careta diante de um filme desse tipo, mas não. Ela queria assistir. Eu jurei, em umas duas ou três vezes, que ela se lançaria em meus braços, mas não. Ela estava ali e estava assistindo. Foi aí que começamos a quebrar os nossos clichês.
Se a quebra começou em um cinema, o resto se deu fora dele. De um filme recheado com gore e sustos o suficiente para colocar todos os cabelos do corpo de alguém em pé, nós estávamos no banheiro, enroscados um no outro. Por sorte, eu tinha o essencial na carteira.
Passamos a nos ver mais frequentemente. Se havia algo de ruim nisso, era um pouco da perda do elemento surpresa do que estávamos para fazer. Saíamos aos sábados e domingos, passávamos os dias juntos na escola. Você poderia me perguntar algo do tipo de como eu não enjoava dela. Eu respondo, então, que era impossível. Era completamente impossível enjoar de Melissa. Ela conseguia ser tudo o que me atraía. Ela conseguia ser mágica.
A princípio eu admito que o que sentia era meramente algo físico e completamente desligado do emocional, mas um não sei o quê vindo não sei de onde me pegou. E eu caí de joelhos por ela... Passei a admirar cada detalhe. Desde as curvas de seu corpo até os rumos de sua mente. Cada mínimo detalhe de seu ser. Eu queria. Eu a queria completa.
Passou-se algum tempo. Entramos na faculdade e eu, seguindo um clichê, prestei para Engenharia Civil. Ela, quebrando o mesmo, rumou para Física. Não ficávamos tão longes um do outro, nos víamos principalmente aos finais de semana e em um almoço em um dia qualquer da semana. Bom, pelo menos até aquele dia... O dia que destruiu nossas vidas.
Eu a esperava na porta do shopping. Seria mais um almoço com outro qualquer de nossas vidas. Colocaríamos a conversa em dia, reclamaríamos das aulas que nos estavam estressando... Seríamos os dois jovens que deveríamos ser. No final sorriríamos, iríamos nos despedir para voltarmos às nossas casas. Tudo como pede a lógica dos seres humanos. Mas o acaso não pensa assim. Recebi um ligação do celular dela. Alguém, uma voz masculina em meio ao som caótico perguntava quem estava falando. Perguntei o que fazia com o celular da Melissa. Ele me respondeu. E eu não consegui sentir o ar ao meu redor. "Atropelada".
Ele falou em que hospital estava e eu corri tanto quanto pude. Ainda sem carro, ainda sem dinheiro, me senti correndo contra o tempo, a vida e a morte dependendo de minha corrida. Talvez agora isso seja poético, mas nada teve de poético na morte. A morte não é poética. Porque ela não espera e, quando eu cheguei, ela já não estava mais lá. As lágrimas me vieram como uma chuva. Meu coração estava estilhaçado. Minha mente estava destruída.
O homem que dirigia o carro disse que ela se jogou na sua frente. Eu duvido. Ela nunca faria algo do gênero. Não haviam "porquês". Eu me sentia... Não, eu não sentia. Não sentia nada. Levei mais de um mês para acreditar que ela havia partido. Abandonei o curso, me tranquei em casa. Deixei a depressão guiar meus passos. Ela havia morrido e, por Deus, eu havia ficado. Antes eu tivesse morrido junto. Antes não tivéssemos combinado de ir almoçar justo naquele dia.
Eu procurei motivos para me culpar. Embriaguei-me buscando respostas, buscando a ela. Mas ela não vinha. Melissa não estava mais aqui. Eu envelheci. Envelheci mais rápido do que qualquer pessoa faria. Agora, aos trinta e sete, tenho minhas lágrimas secas e o coração amaldiçoado pela angústia constante. Ela morreu há dois anos, mas ainda parece que foi há vinte dias que a vi pela última vez. As saudades corroem...
Foi mais uma quebra de clichês. "Felizes para sempre". O sempre dura pouco.
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