Ele precisava fugir. Estava realmente dentro da casa em que fora criado? Talvez fosse o sangue nas paredes que o estivesse confundindo. Talvez. O som de portas batendo às suas costas o fez apertar o passo pelo corredor que parecia estreito demais para a sua corrida desajeitada e longo demais para a sua velocidade.
Quando alcançou a escada, viu que alguém subia. Estacou por um instante antes de tomar alguma atitude. Praguejou uma ou duas vezes, mas desceu a escada mesmo assim, empurrando o homem que subia correndo. A pistola na mão não estava engatilhada e, por sorte, ele estava mais ocupado em prestar atenção nos degraus do que no garoto que descia por eles.
O menino quase rolou escada abaixo por causa da pressa. Tomou a arma do homem que acabara de alcançar o corredor do andar abaixo, o corpo flácido e os olhos virados para o lado. Não sentiu remorso. Não depois do que havia visto. Simplesmente correu, sem pensar muito.
Não adiantava sair pela frente da casa. Iria se deparar com mais gente, tinha certeza. Seria o seu fim. Tentou abrir a porta da despensa, a mais próxima da escada. Estava trancada, droga! O som de uma voz rugiu no andar de cima e chegou aos seus ouvidos com a força de um trovão.
— Eu vou te pegar, seu merdinha ordinário!
A voz, porém, chegou cristalina como água nos seus ouvidos. Os passos na escada, o som seco da própria respiração forçada. Olhou para a arma em sua mão. Se ao menos soubesse usá-la, poderia acabar com o problema.
Correu até a cozinha. Sairia pelos fundos, nem que tivesse que sair saltando de vizinho em vizinho. A cozinha, porém, reservava-lhe surpresas interessantes para um jovem garoto de quatorze anos.
Mais sangue. O vermelho escuro sobre o verniz da porta já lhe trazia recordações aterradoras de seu pai, no andar de cima, com o corpo amarrado às extremidades da cama de seu quarto e metade do conteúdo de sua barriga espalhado sobre os lençóis, ainda pingando sangue e atraindo moscas.
Afastou as imagens de sua cabeça, abrindo a porta com força. A surpresa chegou com uma onda de náusea e dor aguda no peito. Sua mãe estava deitada no chão, olhos parados e desistentes. Olhos de morte.
Seu pai havia sido estripado e, agora, tinha a primeira visão de sua mãe. Dizer que ela estava morta não é o suficiente para descrevê-la. Os cortes se espalhavam pelos seus braços, havia manchas escuras na camisa branca. Sabia que vinham de uma das armas... Em suas pernas, todas as facas que encontraram na cozinha. Seu rosto congelado em uma eterna expressão de dor.
Chorou. As pernas fraquejaram, mas o som de disparo às suas costas o colocou para correr novamente. A bala foi cravada na porta, há menos de dez centímetros de sua cabeça. Por pouco.
Um urro de frustração explodiu às suas costas. O erro do homem, e agora a sua frustração, estavam lhe rendendo tempo. Tempo para tentar sobreviver. Abandonou a cozinha pela porta que guiava aos fundos. Os olhos refletiam tristeza, dor, remorso... Por que aquilo estava acontecendo? Por que justo com eles? A dúvida fez nascer em seu olhar algo além dos sentimentos que já conhecia... Uma sombra se mexeu furiosamente dentro do garoto, tomando espaço... O ódio já pulsava pelas suas veias.
Olhou para a arma em suas mãos e tentou engatilhá-la. Certo, mais fácil do que pensou que seria. O problema, porém, era o muro que o separava das outras casas. Um revólver engatilhado não resolveria os seus problemas. O muro era alto, uns dois metros e meio. Não havia tempo para tentar escapar ou montar uma escada com os materiais de construção que ainda estavam ali. Estava encurralado.
Ainda podia se esconder, arranjar tempo. Alguém deveria ter chamado a polícia. Era impossível não terem ouvido todos aqueles barulhos de tiro, sendo que compartilhava as paredes com os vizinhos de ambos os lados.
Escondeu-se atrás de um grupo suficientemente grande de materiais para a reforma da casa. Planejara ajudar o pai com a reforma... Seu irmão que ainda viria iria gostar de morar em uma casa bonita, onde poderia se divertir direito... Agora não havia mais nada. Apenas o silêncio rasgado em seus ouvidos. Um silêncio enlouquecedor.
O som da porta se abrindo fez seu coração acelerar e a arma se levantar em suas mãos. Mais lágrimas escorreram pelo seu rosto. Queria a sua mãe ali, ao seu lado, um abraço aconchegante de seu pai. A certeza de que tudo estava bem. A voz gutural gritou mais uma vez.
— Eu sei que você ainda está aqui e eu vou te pegar, seu filho de uma puta!
Suor empapou a sua camiseta. Suor frio, amedrontado. Gotas que condensavam medo e dor. Só agora percebia que havia torcido o pé e doía se apoiar nele. O estampido seco de um novo disparo encheu seus ouvidos, seguido do som de vidro estilhaçando.
— Somos apenas nós dois, garoto. — a voz repetiu mais calma. — Nada vai te salvar disso aqui hoje. Nada. — ele deixou um riso ecoar pelo quintal. — Sua mãe só dizia para eu não te machucar, que você era um bom menino. Ela chegou a me pedir de joelhos... — o riso e o tom de voz subiram alguns tons. — Mas nós dois sabemos que você não é um bom menino, não é verdade? Ela chorou como a vadia estúpida que era, mas você estava ocupado demais se escondendo de nós, em seu quartinho...
O garoto não sabia do que ele falava, mas a simples menção de sua mãe na conversa o fez estremecer. Os sentimentos rasgaram a sua pele. Medo, dor e ódio foram bombeados com a adrenalina pelas suas veias. Apertou com força a arma em sua mão, até os dedos ficarem brancos.
— Você é o culpado disso aqui estar acontecendo. Você matou o meu colega... Você é o único culpado de tudo isso. Se você não tivesse visto e falado demai...
O som de um novo disparo surpreendeu o homem ali, de pé. Um grito ensandecido de ódio, um rompante de fúria que atravessou o peito de um adolescente que pouco sabia da vida e de todos os seus segredos. BANG...! BANG! BANG! O homem não reagiu, manteve-se parado, ainda atônito, sem saber o que fazer. Dois tiros no peito, um no ombro direito. Derrubou a arma de sua mão enquanto o garoto apertou a sua entre os dedos trêmulos.
O homem empalideceu, seus olhos firmes nos do garoto, que agora se aproximava. Engatilhou a arma mais uma vez e gritou antes de dar um último tiro certeiro que fez o homem parar de buscar a respiração perdida.
Caiu de joelhos e chorou. Um grito cortou o ar e a sua garganta seca. As lágrimas despencaram de seu rosto. Jogou a arma para longe e, como se a sua vida dependesse disso, sustentou a voz quebrada. Era o fim. Todos estavam mortos. Ele havia sobrevivido.
* * *
É difícil a sensação de estar vivo manter-se ao nosso lado sempre. Por outro lado, aquele garoto acabara de renascer. Tudo parecia novo, mais forte. A dor se espalhou pelo corpo e a mente dava voltas. O que havia acabado de acontecer em sua casa?
A polícia demorou a chegar enquanto o garoto estremecia, ora perto da mãe, ora perto do pai. Quanto tempo ele havia ficado perto dos dois era um mistério, mas a primeira visão que os policiais tiveram foi do garoto sentado ao lado da mãe, deixando que os dedos desfiassem os cabelos sujos de sangue. Quatro mortos no total, um sobrevivente que precisava prestar depoimento. Teria de ser levado para a delegacia para contar o que havia acontecido.
Entrar na viatura foi desesperador. A sensação de claustrofobia, como se entrasse em seu próprio caixão. Um arrepio na nuca, uma dor aguda. A sensação de que tudo havia mudado, que sua vida nunca mais seria a mesma.
— Já está com o garoto?
O rádio chamou e o homem confirmou, deixando seus olhos abaixarem para o coldre com a pistola na cintura.
— Pode acabar o serviço.
— Desculpa, garoto. — disse o motorista, encarando-o pelo retrovisor. — Não é nada pessoal.
O que estava acontecendo? Antes mesmo que o garoto tivesse tempo de perguntar ou se mover, a pistola iluminou o interior da viatura e o garoto deixou a cabeça tombar para trás. Seus olhos focaram-se no teto da viatura. Nenhuma testemunha nas redondezas. Nada.
Não era como se ele gostasse de matar. Não entendia os motivos daquele homem estranho que o contratara, mas serviço era serviço. Deveria ser feito. Respirou fundo e pegou o rádio preso no painel do carro, aproveitando para acelerar e dobrar uma esquina, afastando-se das redondezas.
— Está terminado, cara. — disse com a voz fraca, nauseado. — Sem nenhuma testemunha, como você queria.
— Quase... — disse a voz no rádio, seguida de um risinho maquiavélico.
O motorista não precisou de muito tempo para entender o que aquilo significava. Ergueu os olhos para a pista. Sua última visão foi um caminhão cegonha na contramão, acelerando em sua direção.
Do Autor: Eu sinceramente achei esse bem fraquinho, muito técnico, pouco sentimento, uma coisa mais parada do que eu vinha escrevendo antes. De todo modo, aqui está ele, marcando presença entre os meus escritos.