Ele abriu os olhos lentamente. A visão ainda turva pouco permitia que enxergasse de verdade, mas já sabia que nada veria além das paredes brancas parcamente iluminadas. O cobertor estava caído aos seus pés, uma boa parte dele para fora da cama. Resultado de uma noite inquieta.
Deslizou a mão para o travesseiro do outro lado da cama de casal.
Onde outrora havia cabelos com aquele cheiro inconfundível, agora havia apenas um punhado de tecido frio e áspero ao toque de seus dedos. Fez menção de acariciá-lo duas vezes mais, mesmo sabendo que era um gesto patético. Não sorria. Deixou que a mão escorresse para baixo, acariciando o tecido como antes fazia com o corpo adormecido dela...
Ela não estava lá. E não estava lá nem ao menos a luz do sol quente de verão que permeava as cortinas finas para banhar em ouro a silhueta daquele corpo que adorava. O que ocupava o seu lugar era uma luz fria vinda de um sol apagado por nuvens espessas... Nuvens decididas a resistir durante todo aquele dia.
Uma segunda-feira estranha que lhe deixava com algo atravessado na garganta. Levantou-se, alguns minutos depois de entender que ela não estava mais naquela casa. Ao invés de procurar o despertar no sabor dos beijos dela, preparou um café que, comparado ao que ela fazia, era horrível. O líquido desceu com gosto de graxa.
Olhou para o aro branco em seu dedo, sem ter certeza de mais nada. Esfregou o dedo, esperando sentir a aliança que esteve ali por tanto tempo que já fazia parte de sua mão... Não sentia. Parecia tão errado ter aquele pedaço ínfimo de pele descoberto... Sentia-se nu.
Estava cansado sem nem ao menos ter saído de casa.
Virou a chave na fechadura. Abriu o portão de casa. Entrou no carro. Os gestos mecânicos não lhe foram surpreendentes. Estava programado para fazer aquilo. Era quase que um alívio perceber que ainda conseguia se mover em meio às ondas de memórias que quebravam na orla de sua mente. A vontade de vê-la era superior a qualquer vontade que ele tinha.
Queria acordar do pesadelo que era uma vida sem ela.
O que havia acontecido para tudo mudar tão de repente?... Seus olhos estavam opacos, sem o brilho característico dos vivos, mas isso talvez fosse porque não mais vivia. Apenas existia. Após um verão de frutos deliciosos e sensações indescritíveis, presenciava um outono que derrubava cada uma das folhas que estimou por tanto tempo...
Uma a uma, as lembranças vinham, sem motivo certo.
Um carro passava e a sua cor lembrava um vestido que escorria deliciosamente pelo corpo dela. Um anúncio no jornal aparecia falando daquela viagem que ela tanto insistiu para que fizessem. A joalheria mostrava as mesmas joias com as quais queria cobrir o corpo dela. O banco da praça lembrava o modo como se sentavam para apreciar os dias quentes e, ao mesmo tempo, a companhia um do outro. O modo como a água da chuva escorria lhe lembrava dos dias em que caminharam beirando o mar, deixando que os pés molhassem e as bocas inquietas se acalmassem com seus beijos suaves...
Durante todo o tempo em que estiveram juntos, ele não apreciou o mínimo do mundo que estava ao seu redor. Ele apenas apreciou a companhia e o sentimento que inundava quando estava com ela. Não estava arrependido. Naquela segunda-feira apática, ele não chorou. "Muito bem", ele disse para si mesmo.
Mas ainda não conseguia parar de pensar nela.
Notas do Autor: Ah, melancolia, melancolia... Por que sempre a melancolia? Hahahahahahahahaha... Dias bons sempre deixam saudades. Só nos resta aproveitar essa saudade da melhor maneira possível. Espero que tenham gostado.