As suas roupas pelo chão formavam uma trilha que levava até a porta do quarto, e ia para além dela. Essa trilha, que outrora fazia o caminho inverso e costumava ser um trecho vital dos momentos belos que compartilhava com ela, agora era apenas um detalhe. Aquela trilha nunca pareceu tão errada.
Ela pouco havia deixado para trás. Uma camiseta dentro do cesto de roupas sujas, uma calça no varal, um par de fotos do casal e um coração que mais doía do que cumpria as suas funções básicas. Era como se em suas veias corresse uma depressão sólida, obstruindo a passagem do sangue, tão essencial para a sua vida.
Não mais essencial que ela, certamente.
O nó na garganta se firmava com força enquanto tentava se acalmar com um copo d’água. O que havia, de fato, acontecido? Sentia-se mal, as mãos tremiam. Não sabia o que fazer. Correu para o banheiro uma meia dúzia de vezes sem jamais se recordar de ter comido tanto em um café da manhã. Havia, de fato, comido?
Preocupações inúteis. Distrações. Tiravam o foco do que estava acontecendo. Do que havia acontecido. Fazia isso para se proteger, sem que percebesse. Não queria, porém, se proteger. Era justo que sofresse.
Era como se o seu mundo desmoronasse feito um castelo de cartas em um terremoto. O exterior, porém, parecia tão calmo... Um dia lindo se escondia por detrás das cortinas fechadas da casa. Tão errado... Aonde estavam as chuvas e os ciclones?
Dentro dele, talvez.
Sentou-se no sofá, sem perceber o que fazia. Um gesto mecânico, talvez. Olhava para a televisão desligada, a camiseta dela bem apertada em seus dedos, como se fosse o bem mais precioso que tinha. Era? Talvez... Uma das poucas lembranças que ela deixou.
O que ele havia feito? A magoara tanto assim?... Estava tudo ali naquela carta, que lera muito mais de duas vezes. Era bem possível que já houvesse decorado aqueles trechos, mas... Não quis fazer o que fez, quis? Não, não quis. Mas não funciona assim. "Um homicídio culposo ainda é um homicídio." A priori pensou que a comparação fosse mórbida demais, mas, parando para pensar, não era.
Olhou para a porta da casa com os olhos mais tristes que outrora adornaram seu rosto.
Ele havia matado o amor que havia entre eles, não?...
Notas do Autor: Espero que gostem...