Qualquer reflexo era um inimigo. Uma arma contra si mesmo.
Respirava feito um cão que acabara de correr por vinte quilômetros. Aquilo era insano. Aquilo não poderia estar realmente acontecendo. Poderia? Balançou a cabeça, segurando os próprios cabelos com força, como se tentasse eliminar as imagens que ainda existiam em sua mente.
Escorregou as costas pela parede da garagem, acabando em uma variação desagradável da posição fetal. Não importava, ele já não ligava para o próprio corpo. Tinha os olhos apertados com força, evitando olhar para qualquer coisa. Estava atordoado, amedrontado. Em um desespero que misturava todas as sensações possíveis e imagináveis. Ou pelo menos as mais desagradáveis.
Aquela risada. Ainda podia ouvi-la em sua cabeça. Ela repetia de novo, e de novo, e de novo... Não parava nunca. Um ruído com o qual não conseguia se acostumar. Uma risada infantil. Uma risada de morte.
“O próximo é você”. Sentiu os pelos se eriçarem ao se lembrar da voz infantil que pronunciou a frase com tamanha... Felicidade. Seria lindo de se ouvir se ele não soubesse o que acontecia aos “próximos”.
Seu filho de sete anos fora um dos próximos. Sua esposa também. Seu irmão. Sua irmã. Todos os seus familiares. Um por um.
Mas os “próximos” tinham mais do que o sangue em comum.
Na primeira noite, todos se sentiram observados.
Na segunda noite, todos ouviram aquela risada.
Na terceira noite, todos eles se enforcaram.
Todos foram mortos na frente do espelho.
Elias estava em sua terceira noite.
Segurava um martelo com força em suas mãos, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto desenfreadamente. Não poderia sobrar nem ao menos um espelho. Precisava correr dali. Ir para o mais longe que pudesse. Mudar de cidade. De estado. De país. E precisava ser agora.
E foi em meio a esse pensamento que ele olhou para a água que escorria da mangueira largada no meio da garagem.
E para o perfeito espelho d’água que se formara embaixo dos seus pés.
Seu reflexo sorria.
Elias gritava.
Homem comete suicídio com mangueira dentro da própria garagem.
N/A: Estou enferrujado, mas vamos nessa. Hahahahahahahahaha...