Aprendi na internet que todas as mazelas brasileiras foram criadas pelo PT. A corrupção é invenção deles, assim como todas as taxas excessivas existentes no nosso país. Manifestação com depredação? PT. Preço do pão? PT. Preço do leite? PT. Preço do PS4? PT. Além de tudo isso, também foram criadores do câncer, da AIDS e da oposição a opiniões, porque não se pode discordar de absolutamente nada sem ouvir que se é "petista, comunista, peguem ele e amarrem no tronco".
Aprendi na internet, também, que lugar de vagabundo é debaixo do chão, enterrado em pé para não ocupar espaço. Que todo ato criminoso deve ser punido com pena de morte, porque não fazer algo por medo é muito melhor do que não fazer algo por respeitar o próximo. Que ateus são superiores a religiosos, mesmo que muitas vezes os religiosos sejam até mesmo mais liberais e mente-abertas do que os demais. Que não devemos ajudar quem passa fome: que morram para que não passem mais. Mas que todos nós temos direitos iguais e ninguém tem vantagem sobre ninguém. Aprendi também que furar filas não é crime (a não ser que seja na sua frente) e que, se você roubar uma bala da vendinha da esquina, está tudo bem se ninguém souber. Mas se alguém te roubar na rua, aí precisa morrer.
A internet me ensinou que drogas são ruins, mas assassinatos em massa e espancamento de presidiários são coisas boas. Ensinou que o argumento perfeito para quem discorda disso é "leva para casa, se está com dó". Ensinou que toda manifestação de livre pensamento deve ser respondida com "você é burro, cara" e que opiniões não importam se forem diferentes da sua. A internet me ensinou que ratos em laboratórios são inferiores a beagles em laboratórios, embora os dois sejam vidas, e que devemos fazer piada com tudo aquilo que nós consideramos ridículo, mesmo que às vezes estejamos nós mesmos sendo ridículos.
Aprendi na internet que ter "swag" e/ou curtir funk é ridículo, mas que está tudo bem em ser um "otaku-nerd-geek-gamer". Aprendi, inclusive, que toda mulher bonita é uma "attention whore", mesmo que esteja apenas agindo como qualquer uma das outras garotas. Aprendi que a disputa hoje é sobre marcas e que a marca do seu celular define com quem você deve falar e como você deve agir. Que a marca que você comprou é sempre melhor que a do seu vizinho, mas que está tudo bem em ter um pouquinho de inveja do dinheiro dele.
A internet me ensinou a não ter senso crítico e a propagar informações sem comprovar a sua veracidade. A internet me ensinou que a vida humana não vale nada e que é preferível ver um ser humano morrendo do que um animal morrendo, a não ser que seja seu filho baleado na rua por acidente. A internet me ensinou que sempre temos que ser imparciais, exceto quando for algo que vá nos beneficiar, aí podemos puxar a sardinha para o lado que nos interessa.
A internet me ensinou tanta coisa que eu poderia passar o dia inteiro aqui escrevendo, mas ela também me ensinou que ninguém lê textos com mais de seis linhas. E tudo o que me resta dizer é: francamente, internet.
N/A: foi mais um desabafo do que qualquer coisa. A internet em si não é o problema. O problema é que todo mundo tem direito a expôr a sua opinião sem precisar filtrar na sua mente se ela é conveniente ou não e, mais do que tudo, se falta ou não senso crítico. E as pessoas simplesmente digitam, defecando pelos dedos e sujando teclado e a tela de quem lê esses comentários. "Francamente, internet".