— Bom dia, pai. — ela falou com a voz delicada — Tudo bem com o senhor?
A ausência de resposta a fez arrepiar. Aquela sensação desagradável. Engoliu em seco. Não poderia fraquejar.
— Você se lembra, pai? — ela perguntou — Se lembra daquele dia, no parque? Quando você me ensinou a andar de bicicleta? Foi mágico, pai... — sorriu e olhou para ele, que permanecia em silêncio — Eu sempre fui a última em quase tudo... Acho que sempre te dei dor de cabeça por causa disso. Tenho que te pedir desculpas. — falou baixando a cabeça e encarando os próprios pés.
Olhou para o vaso de flores ao lado da cama e ajeitou algumas que ameaçavam tombar. Suspirou.
— Ninguém nunca acreditou o quão camarada você sempre foi comigo. O pai que sempre me deu força quando precisei. O pai que sempre me colocava pra frente. O pai amigo, ou o amigo pai. Nunca soube diferenciar: você é os dois. — ela vestiu de novo o sorriso triste — Por favor, pai... Fala comigo.
Os sons dos aparelhos foram as únicas respostas ao pedido dela. Seu pai em coma não poderia respondê-la. Seu mundo virou de cabeça para baixo. Tudo parecia terrivelmente errado.
Um par de lágrimas silenciosas trilhou um doloroso caminho até o seu queixo. De seus olhos azuis marejados, a dor era transparente. Segurava o choro com todas as suas forças. Queria gritar. Sentiu o ar lhe faltar.
Soluçou uma, duas vezes antes de se entregar ao pranto.
— Me desculpe... Pai. — falou em meio ao choro, indo em sua direção e segurando-lhe a mão. — Me desculpe...
O choro convulsivo enchia sua alma de dor e desesperança. Estava tudo acabado. Sem mãe, sem pai. Sem irmãos, sem filhos... Qual era o sentido da sua vida? Pelo resto da tarde, ela chorou. Quando as lágrimas secaram, seu peito ainda gritava. O grito mais torturante que já ouvira.
N/A: e mais outro dos textos antigos! Talvez o melhorzinho deles, hahahahahahahaha...