Ele acordou com aquela sensação esquisita de que alguma coisa estava errada.
Lá estava ele, deitado com seus olhos nublados de sono, sua boca com aquele característico gosto amargo de ressaca. O que estava acontecendo? Remexeu-se na cama antes de levantar-se, tentando acostumar-se com os próprios sentidos. Sua cabeça doía. Do pouco que se recordava da noite anterior, era apenas o de sempre: festa, amigos e bebedeira. Já não era raro que isso acontecesse e, para a preocupação de seus mais próximos familiares, estava cada vez mais frequente.
Olhou para o rádio relógio no criado-mudo, um resquício de tempos antigos em que não podia contar com o próprio smartphone para despertá-lo. Já era tarde, mas não se importava. “Não tenho que ir trabalhar”, lembrou a si mesmo. Havia sido demitido há duas semanas, quando chegou ainda levemente embriagado, às oito da manhã, e desmaiou na própria mesa, mas não antes de colocar todos os coquetéis que provara na noite anterior sobre o notebook em que trabalhava. Não sabia o motivo, mas tinha vontade de rir quando se recordava disso.
Mesmo não tendo compromissos, decidiu que meio dia já era tarde demais para estar na cama. Tentou se levantar de uma vez apenas para perceber o quão dolorido estava. A cabeça girou, perdeu o equilíbrio e caiu de novo na cama antes que conseguisse se por de pé definitivamente. Tudo doía. Certamente isso já era esperado por ele, que suspirou antes de tentar novamente.
Desde que sua esposa o deixou, só sabia sair de bar em bar com seus amigos mais inconsequentes e deixar a coisa rolar. Bebia até não se lembrar do próprio nome e mais tarde arranjava uma briga por qualquer motivo fútil para tentar esquecer algo ainda mais enraizado em seu ser: o nome dela.
Os bares já estavam começando a se recusar a atendê-lo.
"Eu não tenho mais idade para isso", refletiu enquanto olhava ao redor, a visão e a dor de cabeça ficando cada vez mais nítidas. Estava no auge dos trinta e seis anos de idade, não era um momento adequado para se embriagar todas as noites, esperando que algo diferente daquilo acontecesse. Mas também não tinha mais esperanças de que sua vida voltasse aos eixos. Ele edificou toda a sua vida em cima de seu casamento. Sua mulher era a razão de ele viver. E quando ela disse "acabou, eu não sinto mais nada por você", foi como se o mundo tivesse parado de girar. Como se o oxigênio acabasse. Como se todos os seus órgãos se liquefizessem.
Recordava-se de como aos poucos, porém, a tristeza virou raiva. Queria fazê-la sofrer. Queria que ela sentisse aquilo que ele sentia, principalmente todo aquele sofrimento insuportável que estava roubando o seu chão. Chegou a telefonar umas duas ou três vezes, cego de raiva e ciúme, dizendo coisas que jamais teria dito em outras circunstâncias. Dizendo o quanto a odiava, que ela não merecia ser feliz. "Como fui estúpido!", pensou enquanto recordava aquele momento. Ele havia apenas cavado mais fundo no buraco onde ele se enfiou. Porque logo depois da raiva, do ciúme e da tristeza, veio toda aquela culpa.
E a culpa não foi tão simples de lidar. As brigas de bar eram apenas parte disso.
Às vezes ele ainda se pegava com aqueles impulsos estranhos. Se via alisando o cano do revólver que era de seu pai, mas que ele religiosamente lustrava e limpava na primeira segunda-feira de todos os meses. Colocá-lo sobre o queixo, contra a têmpora ou apontando ao céu da boca já era quase tão cômodo quanto o choro que vinha depois. E a pergunta de ouro era refeita pela enésima vez.
"O que eu estou fazendo com a minha vida?".
Pela primeira vez em muito tempo, ele respirou fundo e discou aqueles mesmos números que antes digitava com ansiedade, carinho e um sorriso no rosto. Levou o celular ao ouvido enquanto ouvia o monótono som de linha. Ela certamente não iria atender, não queria perder tempo ouvindo os lamentos de seu ex-marido. É claro que não.
Esperou cair na caixa postal e, quando lhe foi dado o sinal, ele emudeceu. Sabia que não havia garantia de que ela fosse ouvir nada daquilo, mas ele precisava tentar. Todas as palavras que ele tinha na ponta da língua desapareceram, porém, naquele momento. O nó na garganta apertou. Respirou tão fundo quanto pode sem se entregar a um soluço. Engoliu a fraqueza. Antes que não dissesse nada, uma única palavra se lhe escapou os lábios.
"Desculpa", ele disse com a boca e a garganta seca e arranhando. “Eu... Perdão”.
E o telefone, assim como as lágrimas fizeram em seu rosto, escorreu por entre os seus dedos e caiu em seu colo. Não se lembrava de já ter chorado tanto.
N/A: meio melancólico e tudo mais, mas... É o que tem pra hoje, hahahahahahahahahahaha... Boa leitura!
EDIT: revisado em 11/01/2014. \o/