Todos nós tememos alguma coisa.
Assaltantes, homicidas, demissão, miséria, entre tantas outras coisas. Todos esses medos possuem uma justificativa lógica, pautada na realidade. Ela, em geral, se baseia nos nossos quereres... Não quero perder a minha vida, não quero perder o meu dinheiro, quero apenas o meu bem e o bem da minha família... Qualquer coisa que queira se interpor entre os nossos desejos e nós é rapidamente considerada uma ameaça. E, como toda ameaça, ela desperta uma dose generosa de medo. São todas justificativas muito boas para os problemas mundanos que enfrentamos todos os dias...
Mas e quando não é exatamente um problema como esse? E quando o que te amedronta não se encaixa na lógica, está longe da realidade?
Você sabe o motivo de sentir medo do escuro?
O que é que te faz suar quando todas as luzes se apagam e tudo fica em silêncio? Aquele silêncio opressivo, recheado de coisas que você sabe que estão lá, mas crê com todas as forças que não fazem parte da nossa realidade. Você culpa a própria imaginação fértil quando vê um vulto no final do corredor e sente um arrepio chacoalhar seu corpo inteiro. Você precisa acreditar nisso, precisa ter certeza de que está seguro quando as luzes se apagam e você encosta a cabeça cansada no travesseiro. Precisa ter a mais absoluta certeza que o seu sistema de alarmes te defende contra todas as ameaças noturnas.
Isso é no mínimo curioso, não é?
O que te faz pensar que tudo isso é fantasia? Talvez apenas o fato de as crianças levarem a sério? Bom, você precisa ensinar uma criança a temer assaltos, mas ela não precisa que ninguém lhe conte que o escuro é ruim para temê-lo com todas as forças. Precisamos ser disciplinados a não temer o breu absoluto. Fizeram com que você entendesse que aquela criatura que te atormentava quando pequeno, que lambia sua nuca com seus dedos gelados, que te observava do canto mais escuro do quarto com seus olhos brilhantes e que, em um episódio específico, te levantou chão pelo pescoço... Que ela não existe.
Era só a sua imaginação.
Há uma explicação para o fato de considerarmos fantasia, é verdade. Nós precisamos acreditar que elas não existem. De que outro modo nós poderíamos dormir tranquilamente, sem por cadeados em todas as portas e esconder armas sob o travesseiro? Como poderíamos dormir relaxados enquanto a forma física do próprio mal nos observa de perto, seus olhos amarelos e frios acompanhando cada subir e descer de seu peito, seus ouvidos atentos escutando cada um de seus batimentos cardíacos.
Um mal que respira, que fala e que se alimenta. Não é real. Não pode ser real.
É mais fácil acreditar nisso. É simples. É cômodo. Acredite que essas criaturas bizarras que poluem os seus sonhos não existem.
Elas preferem assim.
N/A: espero que gostem. :3