Efêmero

Ele não gostava nem um pouco de dar notícias como aquela. "Quem gosta?", observou mentalmente.

Sentia-se, naquele momento, como um garoto de recados. Lembrou-se imediatamente do pai e da mãe, que brigavam constantemente em sua infância, fazendo com que ele servisse de intermediário entre um e outro, sendo obrigado a ouvir as palavras duras e ríspidas com as quais os dois se presenteavam com um prazer irrestrito.

Respirou fundo, tentando por ordem nos pensamentos tumultuados.

Já trabalhava na mesa de cirurgia há seis anos, mas ainda não estava acostumado a lidar com as perdas a que isso implicava. Era a terceira vez que isso lhe acontecia. "Ossos do ofício", alguém lhe dissera na primeira vez. Recordava de ter sido um homem de meia idade, após um acidente de carro em uma rodovia que ligava o interior à capital. Álcool e direção nunca acabavam bem.

Mas não é uma frase como essa que elimina o sangue que está em suas mãos.

"Não é sua culpa", repetiu para si mesmo enquanto encarava o próprio reflexo cansado no espelho. "Você fez tudo o que você podia", emendou com a voz trêmula.

Seis horas de cirurgia, duas hemorragias e três paradas cardíacas, sendo que a última foi fatal. O paciente mais difícil que já tivera. Mas essa certamente não era a parte chocante de tudo aquilo.

Ainda podia se lembrar de como chegou ao paciente. Poderia ter sido qualquer um a assumir, mas ele queria fazer a diferença naquele dia em especial. "Maldito dia", ele diria mais tarde, mas não tinha como ele saber. Fora chamado para um caso de um jovem baleado durante uma troca de tiros entre policiais e traficantes em uma avenida a pouco mais de um quilômetro do hospital.

"Jovem demais", refletiu, os olhos abaixando para as próprias mãos, já desenluvadas, mas trêmulas demais pra segurar qualquer coisa. Imaginou que lidaria com um rapaz de dezesseis anos com uma bala presa na perna. Jamais imaginaria uma criança dez anos mais jovem com duas balas alojadas perto do coração.

Lutou contra o aperto no peito e a ânsia de colocar o almoço tão distante para fora.

No auge de sua carreira, aos trinta e dois anos de idade, ele nunca havia presenciado a morte de uma criança. Pelo menos não até agora.

Era difícil ver alguém com uma idade tão próxima da de seu filho perder os sinais vitais. Ver e ouvir casos como esse nos noticiários tinha um peso completamente diferente de assistir os batimentos cardíacos desaparecerem a poucos centímetros de suas mãos impotentes.

Seria arrogante dizer que podia entender o desespero dos pais, mas era algo próximo disso. Entendia o que sentiam enquanto choravam sobre o cadáver dos filhos estirados no asfalto.

Sangue e lágrimas se misturando em uma espiral de angústia e violência.

Como poderia abordar aquela família? Como dizer que a esperança de futuro deles foi jogada no lixo por conta de mais um caso de violência? Não existe uma maneira delicada de explicar a um pai o motivo de seu filho ter morrido.

E isso o transportou ao velório de sua mãe, naquele momento em especial. Ele não conseguira chorar, estava chocado demais para entender. Tinha quinze anos de idade, mas não a vontade de acreditar que perdera a mãe para sempre. Era difícil acreditar que ela se suicidara.

Secou o rosto com um papel quase tão áspero quanto a realidade que o fizera chorar na sala de operações. Alguém tinha de fazer aquilo. Atravessou o corredor excessivamente branco até chegar à sala de espera. Os pais olhavam para ele, dois pares de olhos cansados e esperançosos. Esperavam alguma notícia depois de tanto tempo ali.

E ele mal enxergava as figuras cheias de olheiras à sua frente.

"Desculpe, eu...", tropeçou nas palavras. "Seu filho não sobreviveu".

Assistiu o mundo daquele casal desmoronar, o peso caindo sobre ambos os ombros e os olhos afundando ainda mais para dentro das olheiras. As lágrimas caíam à medida que tomavam consciência de que jamais veriam seu filho sorrir de novo, ou ouviriam brincar com os colegas.

Respirou fundo antes de dar as costas ao casal e deixá-los aos cuidados de uma enfermeira próxima. Só queria ligar para o próprio filho e ter certeza de que estava tudo bem. Respirou fundo antes de recomeçar a chorar.


N/A: nada mais efêmera do que a própria vida. Espero que "gostem". Apesar da melancolia e tudo mais, acho que é uma das melhores coisas que já escrevi. Realmente espero que gostem e, se puderem, comentem com suas opiniões. :3 É sempre bom ter um pouco de feedback!

PS: me sinto um pouco mal de marcar isso como "cotidiano", mas não é nenhuma mentira.