Aquela noite em especial estava quente demais até mesmo para uma noite de janeiro. O barulho noturno invadia a sua janela, soando calmamente pelas paredes, arrastando-se pelos corredores e morrendo enquanto descia as escadas. Uma noite em que tudo o que se quer é ficar em casa com um copo de qualquer coisa bem gelado, deitado em qualquer lugar em que se pudesse se esticar.
Bom, ele discordava naquele momento.
Apesar de tantas outras possibilidades de coisas certamente mais agradáveis para se fazer, ele observava o papel e a caneta sobre a escrivaninha gasta e cheia de riscos e desenhos feitos por ele próprio. Tinha ali todas as ferramentas para que escrevesse, exceto pela mais importante delas. A ideia, mais do que nunca, lhe escorria por entre os dedos. Tomou um gole de café, enterrou a cabeça entre as mãos, sentindo os cabelos úmidos de suor e a cabeça quente por baixo deles. Dentre tudo o que podia pensar e as várias ideias que poderia ter, só uma lhe ocorria. "Merda". Era incrível, quando tinha a ideia, não havia o tempo para escrever, mas assim que conseguia o tempo, mal sabia o que fazer com a ideia.
Definitivamente frustrante.
Olhou para as folhas que lhe restavam sobre a escrivaninha e olhou de relance para a lata de lixo cheia até a metade com seus rascunhos. Respirou fundo e tomou mais um gole de café, capturando uma gota de suor que descia pela sua teste com as costas da mão. Certo, precisava ser agora. Rabiscou uma introdução tirada absolutamente do nada. O que poderia ser feito com aquilo?
Hmm... A ideia o agradou. Um sorriso entremeou seu rosto ao imaginar os caminhos que poderia seguir dali. Seu personagem certamente poderia seguir aquela vertente sem que parecesse forçado. Não queria se gabar, mas, céus, ele sabia como começar uma história. Escreveu mais uns seis ou sete parágrafos para chegar à conclusão de que não havia uma conclusão para aquilo. "Merda".
Mais um rascunho no lixo.
Certo, do começo. Puxou mais uma folha para si e, antes de começar, pensou nas histórias que vinha lendo pelos últimos tempos. O que podia aproveitar delas? O ambiente, o modo como os personagens se comportavam, talvez até mesmo a emoção que a história lhe despertou?... Nada. A resposta não está nos outros, pensou calmamente. De fato, não estava de todo errado. Cada um de seus rascunhos vinha replicando as mesmas histórias que tantos outros já viram, então por que perder tempo escrevendo algo que nada mais era do que uma história tão repetida?
"Mas sobre o que escrever?", perguntou a si mesmo em um murmúrio.
Por que não escrever um pouco sobre mim? Não era uma má ideia. Deu uma risadinha antes de começar.
Começou a escrever e sorria a cada novo parágrafo que compunha, sentindo que caminhava na direção certa. Já não se importava com o suor que escorria pelo seu rosto ou que descia pela sua coluna. O copo de café pela metade já mal era tocado. Tinha um sorriso matreiro nos lábios, feito criança que faz arte escondida dos pais. Divertia-se com os parágrafos que iam e vinham e podia escrever sobre eles com verdade e satisfação. Realmente, parecia uma boa história, apesar de ser tão simples quanto poderia deixar. Sorriu ao colocar o último ponto final, satisfeito com sua obra.
Definitivamente não era o que ele pretendia escrever quando começou. Aumentou o sorriso em alguns centímetros e passou os olhos pelo que havia lido. Hmm, interessante. Leu em voz alta:
"Aquela noite em especial estava quente demais até mesmo para uma noite de janeiro. (...)"
N/A: espero que tenham gostado, hahahahahaha... Foi divertido escrever. :3 Cya!