Lenore

Ela fumava um cigarro para passar o tempo. Soltava a fumaça calmamente enquanto desfilava de salto alto sobre as calçadas esburacadas e sujas do centro. O cheiro de urina e fezes estava sempre presente naquelas calçadas, mas aquilo não fazia diferença para ela, já acostumada ao ambiente de decadência e sofrimento que eram as ruas da cidade.

Vestia meia calça tal e qual o céu vestia a meia noite. Usava minissaia e espartilho. Saltos altos que estalavam no calçamento enquanto caminhava. Seus cabelos ruivos e seus modos quentes eram mais atrativos do que a ausência de roupas em uma noite fria como aquela. Os carros buzinavam e lançavam farol enquanto ela caminhava calma, projetando sombras nos portões fechados dos estabelecimentos. Silenciosamente, vez ou outra, tragava longa e profundamente o cigarro que vivia solto entre os lábios. Não tinha um destino certo, muito menos hora pra chegar aonde quer que estivesse indo.

Desfilava calma feito a noite que a cercava.

Alessandra, chamavam-na seus amigos.

Lenore, chamavam-na seus clientes.

Puta, chamava a sociedade.

Andava sem refletir, preferindo não pensar na noite fria que a cercava e na quantidade mínima de roupas que usava naquele momento. A calcinha fio dental ainda a incomodava enquanto caminhava, apesar de todos aqueles anos. Não ficaria doente por conta do frio e do sereno, ela bem sabia, porque sempre fora resistente.

Apenas mais um dos motivos para ter sobrevivido por longos nove anos naquela vida. Vida de quem dá mais que o sangue para sobreviver.

Um carro parou do seu lado, ao que ela se inclinou para conversar com o rapaz. Sorria sem querer, ria baixo, sufocando a saudade que sentia do filho e do marido naqueles momentos. Seu marido nunca soube de sua profissão e, graças a Deus, ele ainda acreditava que ela fazia plantões na livraria, arrumando tudo em no turno da noite entre duas e três vezes por semana.

Apesar dos protestos dele quando ela dizia que precisava sair, não havia o que fazer. Era o seu jeito de sustentar a casa, de ajudar como podia. "E funciona", observou silenciosamente.

Mal ouvia o que o rapaz falava e respondia aos seus elogios e perguntas de maneira mecânica, porém lasciva, ostentando a sensualidade e o corpo que, graças ao bom Deus, conseguia manter mesmo aos trinta e cinco anos de idade. As amigas a invejavam, assim como faziam as colegas de profissão. Era o seu meio de vida, seu trabalho.

Possuía as coxas bem torneadas, um bumbum durinho, um abdômen reto que era resultado de uma dedicação absurda com os treinos que fazia na academia, além de seios fartos que definitivamente chamavam a atenção. Alessandra não era uma mulher que passaria despercebida em qualquer lugar. Principalmente quando era Lenore.

O marido idolatrava seu corpo esbelto, mas a amava por muito mais do que o seu exterior mostrava, ela bem sabia. Ele provava isso para ela todos os dias. Seus elogios iam e vinham sobre o seu corpo e a sua mente. Recordou-se de quando ele descobriu como ela se sentia quando recebia livros de presente, fosse em aniversários ou quaisquer outras datas, e passou a mimá-la constantemente com a literatura.

Alessandra se perguntou, naquele instante, quando foi exatamente que passou a carregar mais preservativos do que livros em sua bolsa.

Sempre fora apaixonada pela literatura, era grande fã dos clássicos, embora vez ou outra dedicasse sua atenção a um best seller que era sucesso pela crítica. Lia Descartes nas horas vagas e foi ela quem apresentou Foucault ao marido e ao filho, que veio a decidir aos treze anos de idade que faria Letras ao invés de Engenharia Eletrônica, como o pai sugerira anos atrás.

Seu próprio nome vinha da obra de Edgar Allan Poe, embora pouco houvesse em comum com o seu personagem em si. Recordava-se de ter lido o nome pela primeira vez aos dezessete anos, quando leu O Corvo em um dos livros que o pai deixara para trás. Sempre quisera se chamar Lenore e por que não fazê-lo agora, que precisava de um novo nome?

O rapaz a convidou para entrar no carro, tirando-a de dentro de seus devaneios, e ela entrou após pedir que lhe mostrasse o dinheiro. "Precaução", lembrou a si mesma. Não seria a primeira vez em que um rapaz a enganaria, fazendo com que ela lhe entregasse o produto e ele não fizesse o pagamento mais do que merecido.

Sentou-se ao lado dele com os seus olhos verdes distantes envoltos pela máscara suave que a maquiagem lhe proporcionava. Seu corpo estava bem próximo do rapaz que dirigia, mais atento às curvas do corpo dela do que às da pista. Ela teve de guiá-lo até o motel mais próximo e o fez sem muita dificuldade, já que conhecia melhor o centro do que a palma da própria mão.

Atirou a bituca do cigarro pela janela, respirando longa e profundamente. O rapaz a tocava com a mão direita, vez ou outra deixando-a para mudar de marcha. Corria as mãos por cima da meia calça, por dentro ou por fora de suas coxas e ela sustentava um sorriso dissimulado que a profissão lhe ensinou a usar.

Rapaz faminto de prazer, querendo sexo sem compromisso, disposto a pagar uma profissional se achasse necessário. E ali estava ela, sentada ao seu lado, lambendo os beiços, acostumada com aquela situação que muitos considerariam embaraçosa.

O garoto não era dos mais bonitos, mas tinha o seu charme. Lembrou a si mesma de que ela não fazia aquilo por prazer. Fazia porque tinha de fazer. Era a sua profissão, apenas. Sua vida estava em casa, esperando o seu retorno.

Pensou em seu filho, naquele instante, o único que tinha. Estava com dezesseis anos de idade e mais hormônios do que o corpo poderia suportar.

Não gostou dos caminhos que sua mente estava tomando.

Não era seu filho ali ao seu lado, pensou enquanto cerrava os punhos, enterrando as unhas na palma da mão e afastando as imagens que, naquele momento, a enojaram. "Mas poderia ser", a mente dela frisou com uma impertinência que ela teve de engolir. Tinha gosto amargo de bile.

"Os benefícios de ser mãe", pensou em seguida, com um meio sorriso triste e sarcástico, mas o mais sincero que dera desde que a noite caiu.

Respirou fundo quando entrou no motel, acompanhada do rapaz, que mantinha as mãos grudadas no corpo dela, aproveitando cada segundo na companhia da mulher. Abriram a porta da suíte que lhes indicaram e acenderam as luzes. O perfume dela encheu o lugar rapidamente. Um perfume suave e sedutor, não aquele que o marido dera de presente há dois meses atrás, mas a mesma fragrância que dava a si mesma todos os meses desde que decidira por aquela vida.

A única coisa particular que levava consigo naquela noite era a pulseira que o filho lhe dera quando conseguiu o primeiro emprego em uma editora, como assistente. Uma forma de dizer obrigado por tudo o que ela havia feito por ele. Recordava-se de ter chorado de emoção, quando recebeu. Poderia ser algo simples e com pouco valor material, mas era um lembrete para ela. "Não se esqueça de quem você é", repetiu para si mesma enquanto entrava no personagem que criara para si mesma.

Alessandra, naquele momento, tornou-se Lenore.


N/A: espero que gostem, gostei de escrevê-lo. :3 Comentem, digam o que acharam, sua opinião faz um autor feliz. <3 Cya!