Escala de cinzas

A fumaça do cigarro ondulava com o soprar do vento, criando figuras abstratas à luz do luar. Já passava de meia noite, mas a principal característica dos embriagados é a de que eles não se importam com o horário, não importando qual seja ele. Eles apenas seguem fazendo o que acreditam que têm de fazer.

Ele, naquele momento, fumava o terceiro cigarro da última meia hora. Seus olhos tristes e cansados apontavam para o colo ocupado pelo álbum de fotografias que recebera de sua mulher. “Ex-mulher”, ele corrigiu mentalmente, soltando mais uma baforada de fumaça, sem saber ao certo o que fazer com tudo aquilo que estava dentro dele. Uma recordação o atingiu como uma marreta e só não o fez se levantar por conta do equilíbrio já prejudicado pelo álcool em seu sangue.

A recordação, regada a álcool e nicotina, o transportou para seis anos no passado, logo após o seu primeiro ano de casado. Sua então mulher era uma fotógrafa apaixonada. E uma fotógrafa apaixonante, como ele costumava frisar a todo instante. Recordava-se do modo como ela capturava as imagens com seu par de orbes azuis e poucos instantes depois já erguia a câmera e tinha uma fotografia maravilhosa. Ela era genial em sua visão de mundo. Embebia suas fotografias em emoções que, antes de seu clique, só existiam para ela. Ela tinha os olhos e a mente mais criativa que ele jamais conhecera.

Ela sempre prometera que lhe presentearia, um dia, com um álbum. Com o melhor álbum que ela ou qualquer outra pessoa seria capaz de fazer. “Um álbum sobre nós”, ela repetia com seus lábios sempre tão persuasivos, enquanto ajeitava as mechas ruivo-acastanhadas atrás de sua orelha.

E foi o que ela fez.

Voltou ao presente, seus olhos a beira de transbordar. Soluçou, cuspindo a fumaça do cigarro que já estava perto do fim. O álbum permanecia fechado em seu colo. Deixou que a mão deslizasse pela capa de couro do álbum para sentir a textura e, apesar do cheiro forte de cigarro, o cheiro de couro novo ainda permanecia. Um pequeno sorriso se esboçou em seu rosto quando leu a capa.

“Sobre nós”. Típico dela.

Abriu o álbum pela primeira vez em muito tempo. Sentia-se como um herege, profanando algo que, durante muito tempo, fora tudo o que havia de sagrado em sua vida. Aquele álbum fora o seu tesouro mais preciso. “Ainda é”, pensou enquanto sentia aquele gosto de mágoa, amargo e desconcertante, preso no meio de sua garganta.

As duas primeiras fotos eram em preto e branco e recordava-se de que assim eram também as demais. Ela dizia que as cores eram supervalorizadas. Ele sempre ria diante disso, retrucando que era ela que adorava se vestir com as combinações mais bizarras de cores quando saíam juntos, ao que ela ficava emburrada até ele a presentear com um beijo estalado na bochecha.

“Nós jamais vamos nos lembrar de todas as cores de todos os nossos momentos”, ela dizia com o olhar perdido, sonhador. “Por que eu deveria retratar as cores? Eu quero nos fazer lembrar”, completava sempre se voltando para ele com aquele sorriso encantador que só ela sabia dar. “Eu quero que evoquemos as nossas memórias”.

Ela definitivamente havia acertado.

Respirou fundo, enxugando uma lágrima teimosa que lhe escorreu pelo rosto lenta e calmamente, trilhando o caminho para as demais que viriam. A foto lhe chamou a atenção pelo peso que tinha para ele. Para eles, na verdade. Era um par de mãos sobrepostas, o foco nas alianças. Lembrava-se de quando ela tirara aquela, umas poucas horas depois de deixarem a cerimônia de casamento, enquanto iam para a lua de mel. Ela sempre arrastava a câmera para todos os lados e não foi diferente naquele momento. Uma fotógrafa apaixonada, afinal de contas.

Recordava-se de ela pedindo que ele colocasse a mão sobre a dela. De como se acomodou atrás dela, sorrindo, beijando a nuca e fazendo com que ela errasse o disparo uma meia dúzia de vezes, até dar um empurrão nele, o fazendo ficar quieto. Sorriu com a lembrança. Recordou-se de como ela sorrira quando o disparo deu certo e ela pôde ver a prévia da fotografia. Não mostrou ao rapaz, é claro. “É surpresa”, ela dizia sempre, com um sorriso matreiro, aquele sorriso de menina arteira.

A segunda foto o fez soluçar. Não se recordava de vê-la tirando aquela por motivos óbvios, mas ela havia deixado uma nota escrita embaixo da foto. “Meu amor dormindo após o primeiro sexo de casados, rawr!”. Era o rapaz deitado de lado na cama, os lençóis desarrumados cobrindo-o desajeitadamente até a cintura. Podia-se entrever o começo da curva de sua coluna, um pouco de seu físico atlético que conservara por um tempo razoável antes de a idade começar a lhe tirar os músculos e empurrar uns quilos a mais.

Conseguia se lembrar de acordar e encontra-la lhe acariciando os cabelos. Beijou-lhe os lábios com um “bom dia” silencioso e sorriram um para o outro. Ela havia dito que o havia fotografado exaustivamente e que teriam, então, de passear para que não parecesse, naquele futuro álbum que ele tinha nas mãos, que eram um casal de tarados caseiros que não conseguiam fazer nada fora do quarto. Ele rira, naquele momento, mas agora só conseguira esboçar um sorriso amargo.

Sentia falta dela.

Não teve coragem para avançar para as próximas páginas. Fechou o álbum mais uma vez, apertando-o com força entre as mãos, as lágrimas escorrendo freneticamente por seu rosto soluçante. Era hora de se despedir.

O cigarro já estava no chão e a garrafa de vodca permanecia pela metade ao lado de sua cadeira, acompanhada de um frasco cheio de álcool. Olhava para o chão à sua frente, para o amontoado de jornais velhos que amassara mais cedo. Soluçou mais uma vez, pegando a garrafa e tomando um gole generoso da bebida pura.

Esvaziou o resto sobre o emaranhado de papeis, umedecendo-os.

Por que tudo tinha que ser assim?

Acendeu mais um cigarro, tragando com as mãos trêmulas em meio ao soluçar inconstante.

Tudo havia desmoronado na sua vida naquele maldito dia, há dois anos.

Atirou a ponta do cigarro em meio aos papeis, vendo o fogo levantar brandamente.

Atirou mais álcool, vendo as chamas subirem.

Ela não estava mais ali. Ele não podia mais vê-la. Abraçá-la. Beijá-la.

Ela jamais tiraria outra fotografia.

Soluçou quando se levantou trôpego, profanando o silêncio da noite com o seu choro.

Era tudo culpa dele.

Se eles não tivessem discutido naquela noite... Se ele não a tivesse mandado embora... Se ela não tivesse pegado o carro e ido para a casa da sua mãe... Se não estivesse chovendo tanto... Se o carro tivesse conseguido se manter na mão certa quando ela perdeu o controle...

Se o caminhão que vinha do outro lado tivesse conseguido frear.

A dor o assaltou no peito enquanto ele abraçava o álbum de fotos com força, chorando descontroladamente. Ninguém deveria morrer antes dos trinta. Ninguém como ela deveria morrer.

“Mas o passado precisa ficar no passado”, sua família lhe dizia. Já fazia dois anos. Dois longos anos que passou trancado dentro de sua própria casa, vivendo à custa da caridade de seus familiares mais próximos. Já era hora de se despedir.

Esforçou-se para parar de chorar. Secou as lágrimas, apesar de sentir que elas ainda escorriam pelo seu rosto. Fungou algumas vezes antes de conseguir soltar o álbum de seu abraço e encará-lo por alguns momentos.

“Eu sinto muito... Eu sinto muito, meu anjo...”, começou, com os olhos tristes apontados para baixo. “Mas chegou a hora de eu te deixar ir... Adeus, meu amor...”, disse enquanto o álbum escorria por entre seus dedos, em direção às chamas.

Enquanto caía de seus dedos, ele não pôde evitar pensar que ela estaria fotografando, naquele momento, aquela cena íntima, tão particular. As chamas lambendo a capa de couro, consumindo as bordas das folhas que abrigavam as fotografias há tanto tempo.

Enquanto o fogo consumia o álbum com a melhor parte de sua vida, ele não conseguia deixar de pensar no nome que ela daria para aquela fotografia, que com certeza faria em preto e branco.

“Escala de cinzas”. Típico dela.


N/A: escrito de número 50! Espero que vocês gostem! Cya! :3