Respiramos mal.
Os dias passam devagar dentro dos vários escritórios espalhados pela avenida. Nós sabemos que somos todos doentes e que nenhum de nós tem salvação. Intoxicados.
Os carros se enfileram infinitamente ao longo das várias faixas. O som dos motores ligados, os ônibus, as motocicletas, as buzinas. Ah, as buzinas. Além de respirarmos mal, escutamos mal.
A exposição ao som caótico, pouco a pouco, nos ensurdece.
O caos impera no centro da cidade.
Tossimos em conjunto, uma sinfonia de pulmões se contorcendo de dor. A traqueia arranhada pela tosse às vezes nos faz cuspir sangue, mas o médico sempre nos diz que é normal. Uma consequência do meio em que vivemos. Uma consequência para o fato de que existimos.
Comemos mal.
Nossa comida não é pouca, felizmente. O pouco que ganhamos permite que coloquemos alguma comida em nossos pratos: nossa porção saudável e desregulada de hormônios e toxinas que nos tornam estéreis, causam câncer e podem, uma hora ou outra, nos matar. Mas morrer faz parte da vida, certo?...
É claro, há aqueles que não possuem dinheiro para comer e, olhando para o que temos disponível, não tenho certeza se eles são os abençoados ou nós. É claro que somos nós, apesar dos pesares... Talvez eles não tenham tido as mesmas oportunidades, penso, apesar do que bradam os formadores de opinião. "Todos nascemos iguais perante Deus", eles dizem. Recordo-me de ter rido quando me disseram. Pensei, naquele momento, nas maternidades públicas com crianças empilhadas, mães apodrecendo nas filas por um leito e erros médicos. Acusaram-me de comunismo quando dei a minha opinião, mas tudo o que fiz foi dar de ombros. Não faz muita diferença o que pensam de mim, sou um mero observador.
Respiro fundo antes de tossir mais uma vez, escarrando mais um pouco de sangue. Admiro aquela pequena bolha sangrenta maculando a palidez cadavérica do guardanapo branco, já cinzento pela poluição do ar. Faço esforço para respirar mais uma vez sem tossir e penso em algo que me veio à mente nos últimos tempos.
Vivemos mal.
E como foi que deixamos chegar até aqui?
N/A: após algum tempo sem postagens, eis-me aqui. :P Uma coisinha para se pensar. Não sei como categorizar esse texto, mas vou tentar, hahahahahahahahaha... :3 Comentem!