Ferrugem

1

“A regra sempre foi essa, Maurício”, disse Ricardo, o dono da bola, irredutível, “quem chutou pega”.

Eram quatro garotos naquele fim de tarde seco e impaciente. Maurício, o mais novo entre eles, estava no sétimo ano do fundamental, enquanto Ricardo, Josué e Matias estavam no nono. O dia já estava chegando ao fim e, em meio ao suor e ao excesso de hormônios, estava o caçula sendo obrigado a buscar a bola que mandou por cima da grade.

“Ah, qual é, me dá um desconto”, pediu o garoto mais novo. “Eu joguei demais, hoje”.

Os outros apenas riram enquanto apontavam para o fim da rua, distante o suficiente para que Maurício, que não estava tão em forma assim, já ficasse desanimado apenas por imaginar a viagem que teria de fazer.

“Foi você que fez a cagada, agora vai ter que buscar lá dentro do ferro-velho”, apontou Josué.

Apesar de o tempo estar quente demais e o jovem estar completamente suado, ele não engoliu em seco por esse motivo. Um brilho de desespero, Josué poderia jurar, horas mais tarde, passou pelos olhos do garoto.

“Não, gente, por favor, eu”, ele foi interrompido por Matias que, rindo, o virou e empurrou na direção do fim da rua.

“Pega a bola, gordinho”, disse sorrindo, sarcástico, ao que Maurício fechou a cara.

“Gordinha é a sua mãe, aquela vaca estúpida”, rebateu.

“Como é que é?”

“Segurem a onda, os dois”, interveio Ricardo, mais alto que os dois, antes que a mão fechada do colega de classe acertasse o mais jovem no rosto e lhe desse um olho roxo para ser explicado em casa. Ele se lembrava de como a mãe do caçula era, provavelmente perderia o seu time pelo resto do mês e teria que jogar com Alessandro, um garoto mimado que morava duas ruas acima. “Maurício, pega a porra da bola. Matias, senta essa sua bunda gorda na calçada e espera o moleque”.

Maurício saiu pisando duro, enquanto Matias sentou-se bufando, olhando com raiva para o garoto.

“Espero que você morra!”, gritou o mais velho, cheio de raiva, sendo recebido por um dedo do meio erguido pelo caçula que já estava na metade do caminho.

Maurício caminhava, olhando para aquele ferro-velho que se erguia ao final da rua, imponente. A fachada era basicamente um alambrado com cerca de dois ou três metros de altura – Maurício apostaria em três, mas por não ser muito alto, não era uma opinião de muita credibilidade. O lugar estava fechado e abandonado há tanto tempo que Maurício nunca soube se aquilo era a parte de trás ou da frente, mas acreditava ser a parte dos fundos. Não que isso fizesse diferença. As várias placas de “mantenha distância” e “propriedade privada” estavam carcomidas pelo tempo, pichadas e apenas penduradas por um ou dois dos arames que antes tratavam de fixa-las com cuidado.

O tempo certamente teve um efeito maior sobre o seu interior do que sobre o exterior, pode perceber o garoto enquanto se aproximava. As várias peças de carro estavam expostas ao ar livre, enferrujadas. “Nada além do normal”, pensou. Ferro ao ar livre, exposto a toda sorte de tempo, vai enferrujar. As várias peças de metal eram armazenadas em prateleiras mal organizadas, o que tornava o lugar um maldito labirinto. Maurício se lembrava do que os garotos mais velhos falavam. O Zeca, três anos mais velho que ele, dizia que lá dentro havia ratazanas do tamanho de gatos.

Engoliu em seco mais uma vez, amaldiçoando a si mesmo por ter feito a proeza de mandar a bola por cima da grade.

Maurício afastou um espaço cortado no alambrado. Lembrou-se de todas as vezes que se negou a entrar naquele lugar e, agora, o fazia obrigado pelos seus amigos. Sentiu um calafrio. Bom, não seria o primeiro a entrar naquele lugar e, até então, todos haviam voltado sãos e salvos. Respirou fundo, olhando para trás e vendo os colegas sentados na sarjeta, o olhando calmamente. Pode ouvir o grito de Ricardo, distante.

“Vai logo, Maurício, tá escurecendo!”

Quando passou desajeitadamente o próprio corpo pela fenda no alambrado, ele não fazia ideia de onde estava se metendo.

2

O ferro velho parecia maior quando visto de dentro e Maurício não demorou em notar esse fato. As grandes prateleiras formadas pelo excesso de metal empilhado realmente formavam paredes de uma configuração labiríntica dentro daquele terreno. Era grande, sem dúvidas, mas certamente não era tanto assim. Depois de andar por pouco mais de seis minutos lá dentro sem encontrar a bola, estava começando a ficar desesperado.

E se ela tivesse ficado presa entre os metais na parte de cima?

“Merda”, murmurou, olhando para a cima, dando a volta. Não queria ter de dar a bola oficial que ganhara de seu pai no começo do ano. Seria humilhante ter que fazer isso, principalmente por um erro bobo como aquele que cometera. Ele apenas chutou a bola forte demais e ela foi parar ali dentro.

Já era para ele estar em casa, àquela altura do campeonato.

O horário já era mais avançado do que deveria, uma vez que as sombras que agora eram projetadas no ferro velho eram consideravelmente maiores do que a pouca luz que iluminava as paredes de metal empilhado. Um vento forte soprou e, quando pensou em tomar o caminho de volta – mesmo sem saber ao certo qual seria esse –, ouviu alguma coisa se mover entre os metais.

Não era apenas o vento, certamente. Era suficientemente sólido para fazer barulho. Talvez fosse a bola, pensou consigo mesmo, incerto, olhando para o lugar de onde pensava ter vindo aquele som estranho. Apesar daquela esperança, ele sabia que não era a bola. A bola rolaria e, talvez, acabaria batendo nos metais. Ela certamente não tamborilaria com seus dedos inexistentes.

Aproximou-se receoso, pé ante pé. Seus olhos focados nas sombras diminutas que se esgueiravam por entre os metais, batendo seus minúsculos pés enquanto corriam desenfreadamente. Em meio a tanta ferrugem e naquela escuridão que a cada minuto parecia se estender, era difícil enxergar qualquer coisa, mas não demorou até que os seus olhos se acostumassem e vissem a aglomeração curiosa de criaturas.

Ratos. Dezenas, talvez centenas deles.

Eles corriam em meio aos metais enferrujados, fazendo aquele barulho característico de uma pequena multidão a correr sobre chapas metálicas. Maurício deu alguns passos para trás, tentando se afastar calmamente sem ser percebido. Queria ir embora, dane-se a bola. Queria estar longe dali e daquelas ratazanas.

Ouviu alguns guinchos atrás dele e sua respiração parou no mesmo instante. O som metálico estava atrás dele também. Droga, droga, droga. Aonde mais havia ratos? Não seria de se espantar que estivessem por todo lado.

Talvez as lendas estivessem certas...

Não seria bobagem dizer que tinha medo de ratos. Aquelas criaturinhas nojentas, imundas... Porém aqueles nada tinham de criaturinhas. Eram grandes, bem grandes...

Grandes o bastante para comer uma criança inteira.

Pôs-se a correr pelo caminho que acreditava ter feito até então, tentando voltar para o alambrado pelo qual entrou. Precisava acreditar que aquele era o caminho certo, pois do contrário estaria correndo direto para o coração do ferro-velho. As sombras já engoliam uma boa parte do caminho e, aos tropeços, Maurício se afastou daquelas ratazanas que pareciam cerca-lo em meio às altas paredes avermelhadas de ferrugem.

Maurício demorou um pouco para perceber que corria para o lado errado, mas a sua percepção deixou de fazer sentido quando voltou a ouvir o tamborilar em meio aos metais ao seu redor. Eles estavam por toda a parte.

O caminho à sua frente se dividia em dois e com alguma sorte ele conseguiria atravessar o terreno inteiro até chegar à parte da frente do terreno. Poderia tentar pular a grade e sair dali para nunca mais voltar. Respirou fundo e colocou-se a correr.

Poderia jurar que tinha visto um dos ratos enormes saltar em sua direção enquanto corria, mas não olhou para trás. Apenas correu, seguindo o caminho à direita e torcendo para ser o certo. Aquele maldito labirinto enferrujado o confundia.

Olhou para frente, apertando os olhos, torcendo para enxergar alguma coisa mais nítida em seu caminho, mas só via sombras e mais sombras entrecortadas pelos últimos raios de sol que vinham do horizonte. Porém uma visão clara lhe veio aos olhos alguns metros adiante. Os ratos cruzavam o caminho pelo qual ele seguia. O garoto parou de uma vez só, pensando em dar meia volta, mas o tamborilar dos ratos em meio aos metais pareciam persegui-lo por onde quer que fosse.

Teria de saltar por cima daquelas ratazanas imundas. O arrepio lhe percorreu o corpo quando ele viu alguns dos animais saírem do meio dos metais e começarem a andar calmamente em sua direção, rastejando sem pressa, degustando o seu medo antes de se aproximarem efetivamente dele.

Maurício não pode deixar de pensar que aqueles bichos de tamanho grotesco deveriam estar ali há algum tempo. E em com deveriam estar com fome. O menino correu como se não houvesse amanhã e saltou por cima dos ratos que atravessavam o lugar. Quando se viu passando por cima deles, quase agradeceu.

Quase.

Ele realmente agradeceria se houvesse conseguido aterrissar como se deve. Maurício escorregou ruidosamente após aterrissar em cima de uma bola de futebol e, enquanto ela rolava para longe, ele sentia os ratos saltarem por cima dele.

Ele tentou gritar, mas seus gritos morreram abafados nos pelos da ratazana que entrava pela sua boca escancarada de terror, devorando o que encontrava pela frente. Enquanto o seu corpo se debatia, as ratazanas saltavam por cima dele, devorando suas roupas, sua pele e sua carne.

Um show de horrores a céu aberto.

3

Ricardo e Matias se entreolhavam, entediados. Josué já havia ido para casa com a desculpa de que sua mãe havia dito para que não ficasse até depois que o sol se pusesse. Eles sabiam muito bem que ele estava indo ver a Neide, namoradinha dele, mas não discutiram. Cada um com os seus problemas.

“Cadê o Maurício?”, bufou Ricardo. “Aquele veado vai ter que me pagar outra bola, gordo filho-da-puta”.

Matias apenas riu, levantando-se da sarjeta e batendo na bermuda que usava, tirando a sujeira que grudara nela.

“Acho que o gordinho foi pra casa, Rick”, disse com um meio sorriso. “Ele é muito covardão pra ficar lá dentro depois que sol se põe”.

Ricardo apenas concordou, balançando a cabeça, apesar de algo lhe dizer que não era bem aquilo.

“Ele vai me dar outra bola ou eu quebro a cara dele”, disse enquanto sua expressão irritada passava a ficar ligeiramente preocupada. Ele sabia que Maurício, apesar de não ser o mais corajoso, cumpria a sua palavra.

Os dois saíram da rua e começaram a ir para as próprias casas, Matias rindo do azar de Ricardo, Ricardo um pouco preocupado pelo Maurício. Bom, não podia fazer nada. Já havia dado tempo de o garoto vasculhar o lugar inteiro e ter ido embora.

Maurício, por outro lado, permaneceu ali no meio do ferro-velho abandonado, certamente não por vontade própria. Há algo com os mortos que os impede de voltar para casa, e é óbvio que falo do fato de estarem, hm... Mortos. O garoto definitivamente já não podia ser chamado de gordinho e estava irreconhecível debaixo daquela camada de sangue e pedaços de carne que ainda eram petiscados pelas gigantescas ratazanas que se banqueteavam.

Não muito distante de seu corpo mutilado e atirado no chão, estava a bola parada silenciosamente em meio à ferrugem acumulada do maldito ferro-velho.

Talvez, no dia seguinte, quando Ricardo, Matias e Josué procurassem por Maurício em sua casa e não o encontrassem, eles poderiam resolver entrar no ferro-velho para procurar a bola e o garoto. Talvez a encontrassem ali no canto, parada, depois que os ratos famintos limpassem até mesmo os ossos do garoto do lugar. Talvez eles ainda encontrassem alguma coisa do amigo além da grande poça de sangue coagulado no chão, a poucos metros da bola.

Talvez eles ainda fossem capazes de fazer tudo isso antes de serem devorados pelas criaturas famintas que se esgueiravam em meio às latarias enferrujadas, sobre as chapas metálicas há muito tempo corroídas, espreitando sua próxima vítima, sua próxima refeição... Quem sabe?


N/A: estive escrevendo esse por um tempo (há mais ou menos um mês). Escrevi, parei, escrevi mais um pouco... Ficou meio que uma colcha de retalhos, cada um influenciado por um momento e um estado de espírito. Revisei superficialmente na esperança de que conseguisse publicar logo e, bom, cá está. Admito que não ficou tão bom quanto eu esperava, foi um continho mais experimental (a tentativa de fazer algumas cenas funcionarem em um ambiente pouco usual e cotidiano). Espero que tenha dado pelo menos para divertir e entreter, hahahahahaha... Obrigado pela leitura, deixem comentários! :D