A pureza questionável de seus olhos escorria pelas paredes excessivamente brancas daquele quarto diminuto. A cama, que cabia apertada entre uma estante e uma escrivaninha, estava vazia o suficiente, fosse de memórias ou de pessoas, e aquilo se refletia em seu estado de espírito conturbado. Os fios de cabelo escuros que estavam sobre os lençóis eram inquestionavelmente seus e de mais ninguém, o que lhe trazia aquela bruma de depressão para perto dos olhos, escorrendo pelo corpo que sentia a ânsia de ser tocado.
Rompendo a tênue linha do silêncio, que nunca é tão tênue em uma cidade grande, ele suspirou, enchendo o quarto com o som de sua respiração de chumbo. Teria o mesmo efeito se esfregasse duas chapas de metal uma contra a outra, mas a sua respiração vinha embotada de sentimentos, sentimentos que talvez até mesmo as duas chapas de metal poderiam vir a ter.
Mas ele não, não naquele momento. Encontrava-se em um estado de letargia, abandonado sobre a cadeira, incerto sobre o que pensar, o que sentir, o que querer. Por entre os seus lábios escapava aquela respiração ruidosa e por entre o pouco espaço entre as suas pálpebras, aquele mesmo olhar de pureza duvidosa espreitava o vazio de seu quarto refletindo para dentro de seu ser.
O silêncio prevalecia e era respeitado por ele, ali sentado, observando os segundos passarem diante de si, um de cada vez.
N/A: sobre um ser que sofre de saudade aguda.