Avessa

Tem vezes que vem,
tem vezes que não,
esbarra em ninguém
pela multidão,
escorre dos dedos,
pinga no papel,
desfia meus medos,
arranca-me o véu.

Desfaz-se no ar,
compõe nova trama,
vive a navegar
nos lençóis da minha cama.
Me bate tão forte
sem fazer sofrer,
me dá um novo norte
e um novo querer.

Ao som da manhã
que tiquetaqueia,
é, dos vícios, anciã,
que ataca na veia,
inspira e transpira
sem ser arrogante,
soa feito lira
para os navegantes.

Entorta e inverte,
sem ter um perfume,
permanece inerte
em meio ao negrume:
o dia anoitece
quase de repente,
a trama se tece
dentro da mente.

Esconde em palavras
suas intenções,
seus sonhos e mágoas,
suas reflexões,
vira a cabeça
de todos na sala,
poesia às avessas
que rouba sua fala.