Casa fria, copo quente. Leite, achocolatado, talvez uma colher de açúcar. Aquela sensação de "tanto faz" constante em cada nova ação... Mecânico, sim, a palavra é essa. Puxou o cobertor que trouxera da cama para cima dos ombros, enquanto caminhava da cozinha para a sala, apenas para senti-lo a escorrer novamente pelos seus braços. Era difícil mantê-lo no lugar enquanto segurava o copo.
Sentou-se no sofá com cuidado. Não queria molhar-se inteiro como fizera na semana passada. Era domingo, ainda era cedo. Não, não havia dormido. Certamente ouvira de vários amigos a famosa frase estúpida: "dormir não dá XP". Não pôde impedir o riso baixo de escapar pelo nariz, os olhos apontados para a mesa de centro baixa, com tampo de vidro, que refletia a imagem da TV desligada.
O sol tímido que penetrava pelas cortinas finas da sala deixavam o ambiente à meia luz, confortável para os seus olhos cansados. Ao notar a ausência do porta copos na mesa de centro, respirou fundo: um gesto sutil de autodepreciação. Havia se esquecido - mais uma vez. "Foda-se", murmurou, tomando um gole e colocando o copo sobre a mesa sem mais cerimônias.
A dor de garganta ainda era ingrata e persistente. Já deveria estar acostumado a esse tipo de coisa, porém. O gole de leite quente desceu fervendo pela sua garganta e a sensação era a de que jamais voltaria a sentir o gosto de mais nada em sua vida - ou que seria capaz de engolir coisas novamente. Adeus, língua e garganta, vocês lutaram bravamente.
Esse tipo de coisa é privilégio de ser morador de cidade grande, respirador de fumaça profissional. Impossível não se sentir um bacharel em tosse seca, e pós-graduando em rinite alérgica, quando se tem crises a cada dois meses. Isso se não contarmos os espirros a cada mudança de temperatura. Com o tempo, assim como todas as coisas, acaba virando piada.
Arrumou mais uma vez o cobertor por cima dos ombros, estava inquieto. Cansado, sim, mas inquieto o suficiente para não conseguir pregar os olhos. Sentiu o celular vibrar no bolso e, sem precisar pensar muito, puxou e viu o que era. Suspirou. Convite para jogos. Não bastasse um, vinham dois. Da mesma pessoa. "As pessoas deveriam arrumar mais o que fazer", pensou, colocando o celular na mesa e pegando o copo mais uma vez pra si.
Tomou um gole e pensou, em silêncio, enquanto apreciava os sons da casa velha que rangia a cada brisa mais forte que batia nela. Distrações. Um mundo inteiro de distrações. Morar ao lado de uma rodovia, em uma rota de aviões, na frente de uma escola de ensino fundamental, tendo vizinhos que fazem festa aos finais de semana, te concede o benefício de não encontrar silêncio antes das três da manhã. E os passarinhos - ah, os passarinhos - que começavam a cantar às cinco e meia, encerram o curto período de paz e tranquilidade.
Mas antes fossem essas as reais distrações. Internet, Facebook e celular. "Estar sempre conectado", pensou com um sorriso amargo. YouTube e Netflix. Essas são letais e sorrateiras, pegam você na curva, em um momento inesperado. E você só percebe duas horas mais tarde, com cara de besta, assistindo à season finale de algum seriado irrelevante que você pensou que seria legal assistir.
Um caderno, um lápis, uma borracha e umas horas longe de tudo isso: as possibilidades são ilimitadas. É claro, você pode sucumbir ao impulso de desenhar na folha ao invés de investir em um prólogo decente para uma história, ou ainda fazer uma bolinha - daquelas bem compactas - e ficar petecando entre uma mão e outra. Mas, se você conseguir foco, você vai escrever. É inevitável.
Um sorriso breve escapou e ele não tentou esconder: não havia ninguém na sala e não seria o piso de madeira que iria questioná-lo. Passou a mão na testa, respirou fundo. Tomou mais um gole do leite quente. A cada nova respiração, sentia o peso do dia que passou. Não que houvesse feito muito: bastava estar doente para o dia ser horrível, pesado e improdutivo. Mas também não era como se ele estivesse se esforçando para produzir alguma coisa.
Pôs o copo da mesa, jogou o corpo pra trás e, com os olhos encarando o teto branco, suspirou. "Hora de colocar os projetos em dia".
N/A: *cof cof* preguiçoso *cof cof*.